
VIDA
Foto: DDiArte
Do tempo fiz meu aliado
Nesta batalha da vida
Mas dela estou alheado
E sinto-a quase perdida
Mantenho a face no ar
A esperança no vencer
Tenho a vida no olhar
Do nascer até morrer.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

VIDA
Foto: DDiArte
Do tempo fiz meu aliado
Nesta batalha da vida
Mas dela estou alheado
E sinto-a quase perdida
Mantenho a face no ar
A esperança no vencer
Tenho a vida no olhar
Do nascer até morrer.
Manuel F. C. Almeida


A Florbela
Desenhavas sonetos no olhar
E sentimentos nas palavras
Teus olhos, de tanto chorar
Nunca paravam onde estavas
Teus amores e desencantos
Teus homens, tuas paixões
Trouxeram-te horas de prantos
Engalanaram tuas canções
Mas tanta dor e sofrimento
Tanta genealidade vivida
Terminaram no momento
Em que te subtraíste à vida.
Manuel F. C. Almeida




Ilusão
foto by:Marcos Sobral Nudes & Fashion
Não se diga que não tentei.
A verdade incompreendida do
Entardecer escondeu sempre
A face real da dor.
Um fragmento do espaço liberta-se
Em cada olhar incontido e nele
Revivemos a alegre inocência
Dos adolescentes apaixonados.
Mas o cheiro das acácias
E o sabor almiscarado do teu corpo
Mascaram a ilusória passagem
Temporal
E em cada investida que faço
É o jovem que fui
A falar presente.
Manuel F. C. Almeida





IMAGENS
FOTO BY:Caamaño Castro
No corrupio das horas
E dos dias, todo o momento
Parece dolorosamente
Fugidio.
Liberto os meus sentidos
Na placidez das horas e
Despejo nelas a angustia
Dos espelhos intemporais.
Manuel F. C. Almeida

foto by:Graça Loureiro
Num tempo sem tempo nascidos
No esgar do gozo germinados
Passamos pela vida adormecidos
Corremos sem correr, inanimados.
Miragens perseguidas toda a vida
Levam-nos à terra novamente
A chama intensa já perdida
Esmorece no olhar suavemente.
Partimos então noutra viajem
Embalados pelo vento solar
Faz-se do passado mensagem
No tempo que está a mudar.
Manuel F. C. Almeida

Semáforo
foto by:ABrito
A luz vermelha acesa…
O teu corpo em espera
Peão,
Avanço
Que o meu corpo
Desespera.
Manuel F.C. Almeida



IV
FOTO BY:junior Franch
No tempo dos jardins
Suspensos,
Engalanei o teu corpo
Com o perfume dos campos.
Á noite,
O silencio e o cheiro das
Janelas que abrias
Eram fontes encantadas
De onde fiz brotar
Uma corrente
De águas férteis.
Manuel F.C. aAlmeida

III
FOTO BY:
Luis Mendonça
Perdido no abandono
Do corpo
Descubro no outro
O desejo de parar
O tempo.
Manuel F.C. Almeida

o tempo
I
FOTO BY:bruno silva
O tempo vive no olhar
Dos homens.
Eleva-se rápido de encontro
Ao tédio e á morte.
Manuel F.C. Almeida

criação
foto by: Marta Ferreira - www.mfotografia.com
No teu cálice fecundo
faço a vida.
bebo o mundo.
Manuel F. C. Almeida






Sons
Foto by:Amanda Com
Vieste com a minha presença
Por entre o fruto vivo
das coxas
e o esplendor da língua
nos seios.
E o verbo perdia-se
Por entre os sons
Retorcidos
Dos corpos
Em espera.
Manuel F. C. Almeida

Impressão digital
FOTO: BYRafael da Silva Macedo
Uma vaga impressão digital
Pressionando o espírito.
A demência selvagem
Dos corpos putrefactos.
O catalizador
Que de olhar fixo
Exorciza o tempo
E o teu corpo
Dança numa fina
Linha de vento.
Manuel F.C. Almeida


wild side
foto by:carlos pereira
Walk on the wild side
E toma-me o corpo
Num copo de absinto
Translucido...
De azul pálido, carregado
Manuel F. C. Almeida



POUSO
FOTO BY:Fernando Bagnola
Nesta estranha acalmia dos dias, meditar um poema nas páginas de um livro qualquer, é como deixar crescer o silêncio dentro da alma sem que nada impeça o tempo de nos conduzir através do seu vector invisível. É nestes momentos que descubro a tua silhueta em contra mão e pouso o olhar na tua sombra.
Manuel F. C. Almeida

OLHAR
foto by:Marcos Sobral Nudes & Fashion
No fim da tarde, quando as cores se desvanecem e as aves se recolhem
Encontro enfim o teu canto, na linguagem contemplativa
De um olhar apaixonado. Mistério da existência. Corrida amarga
Contra o tempo. A teu lado o ópio entorpece-me os sentidos e a visão tolda-se ao leve toque do olhar.
Manuel F. C. Almeida

PORQUE AINDA HÁ HOMENS COM ESPINHA DORSAL
(Embora corram o risco de ser presos como o sindicalista).
ESPECTACULO:
CANÇÕES ANARQUISTAS
Não me pergunto onde vou
Os caminhos nunca acabam
Andorinhas de asa negra
Só vivem enquanto voam·
De polícia já estou farto
Civil ou republicana
De presidente de estado
Bem fardado ou à paisana·
Chapéu preto bem nos olhos
Residente em parte incerta
Trago bombinhas com mel
E os sentidos sempre alerta·
Da natureza nascemos
Vivemos com a razão
Vendo luas e não pago
Imposto de transacção.
Composição: Vitorino Salomé

Descoberta
foto by:DDiArte
Não mais esqueço aquela face branca que se colocou á minha frente de lábios entreabertos no convite claro ao beijo. Recordo ter misturado os meus lábios com os dela e o sabor a canela ter tomado os meus sentidos. Beijamo-nos longa e calmamente, saboreando cada gota de saliva e desenhando com as mãos o corpo do outro. Quando acabámos deixámos os olhos falarem. Naquele dia descobri que o prazer é algo mais que um momento fugaz.
Manuel F.C. Almeida

DESERDADOS
Crianças esqueléticas deambulam
Nos montes de gordura supérflua
Da cidade,
Longe,
Dos olhos da cidade.
Dos despojos privilegiados
Da cidade.
Escondidas da cidade,
Escondidas da obscenidade
Que empesta as modas
Ricas da cidade.
E a cidade adormece devagar
Ao ritmo sacrossanto das igrejas,
Dos bares de diversão,
Dos centros comerciais e
Das consciências de avestruz, que falam
A inevitabilidade da pobreza e da fome,
E justificam as esmolas
Na nossa hipócrita existência.
As crianças esqueléticas
Um dia vão voar e exigir
O seu quinhão de humanidade.
Deixarão de ser coitados
Submissos.
Sairão dos seus lugares
Miseráveis
E virão, rumo à cidade tomar,
Com os olhos ocos de sentimentos,
A vida que lhes roubaram.
Abandonarão a inocência
Que a cidade tanto aprecia
E como DESERDADOS
Virão cobrar a herança da vida
Que lhes foi negada.
Numa raiva sem forma,
Sem história, sem nada...
Manuel F.C. Almeida