quarta-feira, dezembro 31, 2008






foto:Gisleine Martin


Na janela do meu quarto,
Para além dos limites,
Observo os dias passados
Na inocência da eternidade
E na estranheza do silencio.
No ocaso do olhar
Traço um desenho de vida
Peço à vida o acordar.

Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, dezembro 29, 2008



foto:DDiArte

Lá fora a neve pintava de branco os campos outrora verdes e amarelos. Aninhado na minha concha olhava o brincar do vento e admirava a diversidade presente em cada floco. Esta doce loucura a que me tinha abandonado propiciava-me momentos de serenidade indescritíveis. Era possível ouvir e sentir os elementos e a vida. A porta fez-se ouvir. Com curiosidade fui ver quem era. Era algo ou alguém. Vinha reclamar o que era seu por direito e por acaso. Dei-lhe a mão e deixei de passar tempo à espera. Olhei para o lugar que tinha-mos deixado. Caído um corpo, marcava o que eu tinha sido. E nos braços de um anjo voei, finalmente liberto de mim.

Manuel F. C. Almeida


sábado, dezembro 27, 2008





Viajem

foto:Bruno Abreu






Tempos idos
Em que a vida sorria
Ao sol de cada dia .
A terra era uma cornucópia.

Agora cavo
Funda a minha sepultura
E a minha enxada,
Revolve cada dia mais terra
Inerte.
Na busca de um tesouro
Que perdi.
Ao ver-te partir
No olhar da guerra.

Manuel F.C. Almeida



quinta-feira, dezembro 25, 2008

vejam e meditem numa realidade pouco discutida

http://video.google.com/videoplay?docid=-1437724226641382024







Porque o natal é de todos

não deixem que o consumismo

faça esquecer os que nada

ou pouco têm.

Exijam um mundo melhor

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, dezembro 23, 2008



Punheta
Universal,
Tesão
Amorfa.

Quero
Unidade
Esporródica

Pito
Aberto
Ratas
Indecentes
Urros

Olhos do cú

Bicos
Infindaveis
Broches
Linguas
Orgamismo
Tetas

QUE TUDO O RESTO SAO PETAS

MANUEL F. C. ALMEIDA

domingo, dezembro 21, 2008








foto: Marta Bucher




Amar a sinfonia dos lábios
Como se os instrumentos
Habitassem o espaço
Entre sabores.

Manuel F. C. Almeida

sábado, dezembro 20, 2008







A terra



foto by:Altair Castro


Sulca a terra quem a ama
Quem por ela é amado
Abre-a com um arado
Como num ventre
Se recolhe em chama

Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, dezembro 17, 2008





foto: Amanda Com







Há uma tragédia viva nos meus passos
Uma ausência, um vazio a recordar
O cheiro e a ternura dos teus braços
O sabor dos beijos, a musica desse olhar.

Agora ao recordar, meus olhos, baços
De memórias, fazem-no como a cantar
Hinos aos dias, às horas, aos espaços
Que em teu corpo descobria ao beijar.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, dezembro 15, 2008


foto by:http://www.paulocesar.eu%20-%20paulo%20cesar/





Estancou o passo e deu uma última passa na beata. Ao longe, uma mulher passeava um cãozinho, vestido ridiculamente com um casaco de lã. Aproximou-se e o bicho desatou num latido aflitivo. Até os bichos o odiavam. Quando se está na mó de baixo todos nos odeiam e afastam, como se estivéssemos leprosos. Afastou-se do maldito bicho não sem antes deitar um olhar lascivo para a mulher. Há muito tempo que não punha as unhas numa. Entrou na loja de bebidas escolheu um pacote de vinho, pagou, pediu um cigarro à empregada, uma velha conhecida dos tempos em que as mulheres o conheciam e apreciavam a sua presença, com um sorriso e um olhar de piedade ela estendeu-lhe o cigarro e antes que ela começasse a dar-lhe conselhos, agradeceu e saiu. Sentou-se junto á marginal, á sua frente o areal e o mar. Abriu o pacote de vinho e bebeu um trago. Acendeu o cigarro e deixou-se invadir pelas memórias, afinal que mais lhe restava?
Recordava a vida; o que tinha sido a sua vida. Bons carros, boas mulheres. Um filho. Evitava recordar o filho. Há anos que o não via.

Manuel F. C. Almeida
(continua... um dia)

sábado, dezembro 13, 2008












Olhar o sol na linha invisível
Da morte,
Cegou-me o futuro, escureceu-me
O canto,
As estrelas, dos olhos libertas,
Na noite
Carregaram-me os sonhos de faces
Iguais.
O tempo dos gritos vividos
Na sombra
Espelharam-me os dias, a face
E a alma
Mas o retomar furioso das
Marés,
Inundou me o peito de flores
E de Primavera.



Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 11, 2008







foto Mircea Marinescu











De madrugada o sol raiou
Com ele chegaram os cheiros
Do rosmaninho e alecrim
Que me traziam o odor do teu
Corpo em flor

E no espaço ocupado pela memória
Revivi o oceano do teu corpo…
Perdido
Nas margens do entardecer do
Hábito.

Manuel F. C. Almeida



terça-feira, dezembro 09, 2008




O QUÊ?






Não pensem,! por favor
Não pensem!
Já todos sabemos
Que o caminho
É feito de momentos
Fugazes de alegrias…
E Tristezas

Mas esse é o custo do "eu".

Manuel F. C. Almeida

domingo, dezembro 07, 2008







foto: SAGHER





Sangram-me os dedos do ócio,
No encanto da harpa
A rosa cobre-se de aromas
Sintéticos e chuvosos.
O corpo teima e dobrar-se
Num calmo e intranquilo
Oceano, ao som dos violinos
Encantados e das cinzas magmáticas
Expelidas como polpa do
Ventre.
O nome?
Não tem! Aliás, dizem ser:
-Segredos roubados no vento.
Fogosamente, tomei-lhe o corpo
E a salvação surgiu num
Raio de sol.

Resta apenas o nada na sua
Prenhe existência.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, dezembro 05, 2008


Perdidamente

foto by:José Manuel Gouveia



Subitamente ergueu-se. Estava cansado, cansado demais. Olhou as paredes da casa na procura de um ponto onde fixar o olhar. Paredes vazias não lhe permitiam isso. Ouviu o cão a ladrar e o vizinho de cima a escarrar. As manhãs eram sempre assim. Desde há anos que acordava na procura de um quadro que uma noite fugira. Animava-o a secreta esperança que um dia voltasse. A cabeça doia-lhe, era o vinho ele sabia. Vestiu a custa a roupa que não mudava havia dias. Um cheiro a suor, nauseabundo, libertou-se dele.
Pegou a custo na garrafa de vinho e de um trago bebeu o que restava. Olhou-a... vazia. Lavou a cara e ajeitou o cabelo. Decidiu sair de casa. Abriu a porta da rua. À sua frente um carreiro sujo e enlameado convidava a ficar parado. Acendeu uma velha beata que guardara no bolso das calças e lá tomou o seu caminho. Tinha sempre um efeito devastador nos bichos. Gatos ou cães evitavam-no como se fosse o tipo que lhes ministrava injecções mortais e que vivia ao fundo da rua. Um proscrito era como lhe chamavam. Não se incomodava. À muito que assim vivia..

(continua um dia)

Desde aquele dia em que o seu quadro tinha fugido e que se sentia um estranho para o mundo.

Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, dezembro 03, 2008



Alentejo



foto:SAGHER



Da terra nasce o meu canto
Imitando o rouxinol
Com ela faço o meu manto,
De manhã ao por do sol.

Na minha cara vincada
Pela rudeza do vento
Vive a vida amordaçada
Pela paragem do tempo

Percorro vales e montes.
Ás estevas, pinto a flor
E entre ribeiras e fontes
Acalmo este calor

E nos segredos escondidos
Entre as montanhas e o mar
Há sempre cantos perdidos
Para um dia eu cantar

Nestas planícies sem fim
Nas terras em que me vejo
Tudo é riqueza para mim
Tudo isto é Alentejo.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, dezembro 01, 2008









Foto:


Nuno Belo





Sabia que um dia virias
No tédio inebriante do desejo.
De mansinho, á noite
Com o silêncio das estrelas...
Desta existência esfomeada.


Manuel F. C. Almeida