segunda-feira, maio 30, 2011




Elegia social



Nada pode já pintar
As cores do corpo em tédio
A indolência da vontade
Ou as simples palavras
Mudas que guardas
Dentro de ti.

Longe, nada pára o desejo
Ou o momento em que tudo
É belo e as pessoas se apresentam
Como aves do novo mundo
Entre plumagens de mil cores
E o cheiro a novidade.

Então porque não falas
Ou cantas os segredos
Da alma? Não há cobranças
A fazer e o preço a pagar
É tão baixo que não merece
Os juros do silêncio.

Não! Não queiras um teatro
De marionetas como palco
De vida, um presente indolente
Em que tudo se resume a
Uma plateia de aplausos
E um objecto decorativo.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, maio 25, 2011








Leonard Coehn
inspirou este poema
(Like a Bird on the wire)





Porque sou o que não quero
E o que quero não posso ser
Vivo sempre num desespero
Entre o ser e o não ser.

E o ser que na verdade
Está refém dentro de mim
Anseia pela liberdade
Com mirra, incenso, jasmim.

Mas só a minha vontade
Irá decidir o momento
Em que abraço a liberdade
E agarro uma asa de vento.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, maio 19, 2011



Eu vivo só, mas assustado
Pela multidão que me rodeia.
Se falo olham para o lado
Se me calo... sou só areia.
Por tudo vivo inanimado
Preso ao mundo que fechei
É lá que sou escutado
Foi lá que me criei.
Nas margens do ser e do não ser
No único local onde existi
Faço a vida acontecer
Sei que ainda não morri


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, maio 13, 2011



Molho os pés nas tuas águas
E rasgo as duvidas no tempo.
Planto crisântemos em vasos
Que florescem na tua voz

Com o olhar faço o teu molde
Que imprimo dentro de mim
E sopro a figura criada
Com a magia do vento

E nas flores que se desvelam
Do teu ventre feito noz
Saltam sementes de fogo
Que germinam entre nós.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, maio 09, 2011


Em 09/05/2004 escrevi este poema

Escondo-me num canto da noite
Dentro do meu pensar e sentir,
Tenho o sabor dos teus lábios
Presentes, sem que os conheça
E marcam-me a alma como agulhas
Que misturam o fogo com o fogo
A agua com a agua e os corpos
Separados pela linha do tempo.
Tenho o sabor da tua pele
Sonhada no silencio das noites
E a sinfonia dos dedos
No percorrer simples
De um corpo que se ergue
Ao ritmo de compassos binários
Naquela sinfonia que sonhamos
Tocar a dois, sem linhas de tempo
Ou realidades escondidas
Escondo-me num canto da noite
E na ternura antecipada de um beijo.

Manuel F. C. Almeida

 
foto: http://olhares.aeiou.pt/Papion


sexta-feira, maio 06, 2011





















Solta o silêncio
Contido
No ruidoso silêncio
De ti.
Que o silêncio que te
Habita
É o silêncio
De mim.
Abraçamos o silêncio
Que se espraia
Entre nós
Como se não houvesse
Vida
Na voz
Pouco a pouco
Devagar
Mas como bicho de traça
Vai-se o amor no olhar
E o silêncio
Já não passa.
E mesmo quando
Em silêncio
Teimamos em manter
Este fio
Burla-mos o que já
Foi amor
E que é hoje apenas
Cio.



Manuel F. C. Almeida

foto http://olhares.aeiou.pt/rodrigomolina

domingo, maio 01, 2011

Agarro o sol, que se me dá

Solto o espírito no vento
E o olhar nas ondas,
E nunca me perco da liberdade

Que generosamente conquisto
Devagar.

Contemplo a magia das flores
Em que água, vento e sol se
Transformam
E no verbo liberto o que sou

Sou parte de um todo que é beleza
E eternidade.
A minha morte é unicamente
Uma necessidade deste mundo.

A necessidade de tornar sempre
Mais belo o universo a que pertenço.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, abril 27, 2011

Esta noite sonhei com um vale
Verdejante, entre versos
E rimas que se subtraiam
Á poesia encoberta do olhar.
Nos penhascos das palavras,
A coberto da confusão
Dos conceitos, encontrei
Um nome. Um nome único
Como são todos os nomes
Porque os nomes, nomeiam
Pessoas e todas são únicas.
Era o nome “Amigo” e todas
As suas letras estavam bordadas
A ouro e era delas que a luz surgia
Para iluminar o meu vale de sonhos.

Manuel F. C. Almeida

foto: http://olhares.aeiou.pt/ddiarte

sábado, abril 23, 2011

Há uma solidão sinfónica entre
A alma e as gentes.
Um hiato entre o corpo
E o sentir.
Uma vaga vazia entre o “ser”
E o existir.
Foi-se a magia que engalanava
A existência
E o que resta são apenas vocábulos
Mudos.

Até as aves perderam o nome
E limitam-se a perdidas imagens
Sem luz ou conhecimento.


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, abril 19, 2011












Preso no limbo de momento
Segui o caminho que tracei
Das lágrimas fiz um unguento
E com ele me tratei

Caminhei sempre sozinho
Pese embora acompanhado
Só mostrava um brilhozinho
Quando me pensava a teu lado

E assim fui caminhando
Sem pressas ou rumo sequer
No caminho semeando
Malmequeres e bem queres

Manuel F. C. Almeida


domingo, abril 10, 2011



A liberdade de alguns ou a confusão da posse

Criação infernal
De flores e pétalas
Douradas
A liberdade “que é minha”
Tem propriedades
Privadas

Não tem face,
Nem tem existência.
É minha!
Pronto! paciência.

Que eu luto todos os dias
Pela causa da liberdade
Neste mundo de opressão
Mas o objecto “meu”
Encondo-o na palma da mão.

Viva então a liberdade
De quem comigo caminha

Desde que a liberdade só viva
Na liberdade que é minha.


Manuel F.C. Almeida





quarta-feira, abril 06, 2011



















Teimosamente recuso
As minhas faces reais

E dentro de mim, em refugio,
Vivo dilemas morais
Quem eu sou? É meu tormento.
Tanta é a confusão
Entre o que sou quando “ sou”
E a minha existência no vento.

E lá vou, vendendo a imagem
Que prometi não vender… ~

Fujo para outra margem
Quando me quero esconder.

 E só, diante de um espelho
Que parti em mil pedaços
Vejo mil imagens pequenas
No encalço dos meus passos,

Persigo-me sem me encontrar
Nunca sei a quem seguir.

Se aquele que vive o presente
Se um outro que está para vir.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, março 31, 2011




















Encontro o meu espaço

No local em que me perco.

Agito os cabelos

Ao vento e ao

Esquecimento.

Mas se odor do teu corpo

Te anuncia,

Retomo o vento

Na palma da mão,

E iço bem alta

A bandeira da ternura.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 23, 2011
















Estamos quietos, pacientes.
Os cães comem os restos da noite
E na penumbra solta-se um poema rebelde.
As damas envelhecem no sonho da eternidade
A mirarem esbeltos corpos de jovens Adónis que elas possuem
No segredo e no silêncio da solidão.
Demoradamente afago os testículos
Num prazer animal tão criticável
Como o arrancar pelos púbicos a uma santidade.

Descerro a hipócrita lápide "Para sempre"
Num verso complicado e cheios de nomes,
Entre cantares solitários e companhias presentes.
As musas cobrem-me o sonho num festim de sexo
E máscaras de lágrimas reprimidas.
O prato principal foi servido quente
E a geometria toma conta da existência.

Todo o poema se encontra encerrado
Nas pregas vermelhas da minha loucura
E teima em se descobrir á tona da demência
Saudável dos corpos em êxtase.
Teço uma teia com as faces incógnitas
Mas vivas do passado.
E nas ruas de uma qualquer cidade já morta
Pela moral e pelos bons costumes
Os corpos nus dos homens e mulheres,
Teimam em se manter como faróis da liberdade.

Manuel F.C. Almeida

domingo, março 20, 2011





DIA MUNDIAL DA POESIA











No canto da noite
Escondem-se os poetas
E as vidas.

No canto da noite
As ondas choram
Repetidas,

No canto da noite
A tua ausência
São asas perdidas.



Manuel F. C. Almeida


foto cassio sales

quinta-feira, março 17, 2011


Solta o silencio
contido
nesse silencio
de ti
que o silencio que
te habita
é o silencio
de mim.
Abraçamos os silencio
que se espraia
entre nós
como se não houvesse
vida
na voz.
Pouco a pouco,
devagar,
mas como bicho de traça
vai-se o amor no olhar
e este silencio
não passa.
E até, quando em
em desejo,
teimamos em burlar
o silencio
Burlamos o que
já foi amor
e é hoje apenas
cio.
Manuel . C. Almeida

domingo, março 13, 2011
















Era tarde na avenida da liberdade
Artistas desconhecidos deambulavam
Na sombra secreta das árvores.
As putas percorriam a calçada
De cigarro na mão e saia curta.
Um bêbado dormitava num banco
Indiferente ao som constante dos carros.
A polícia percorria de carro a avenida
Na ânsia doentia do acontecimento
Inesperado da função.
Impecavelmente vestido o desconhecido
Percorreu a avenida, trocando olhares
Com as putas, com o bêbado e com a polícia.
Cansado, sentou-se num banco
Podre pelos dejectos dos pombos…
Como é bela a avenida da liberdade
Em part time.

Manuel F.C. Almeida


terça-feira, março 08, 2011


Ao meu amigo
"MIMI" CABOZ
E
A TODOS
OS AMIGOS
QUE PARTIRAM




Já partiste
Meu amigo.
Do teu passado
Resta a tristeza
De um olhar
Ausente
E a mágoa
Presente
De te re(perder).
E foste
Caminhaste
Como todos
Os amigos
Partem um dia,
Sem tristezas
Ou promessas
Por cumprir
Simplesmente
Procuras no tempo
O teu lugar.



Manuel F.C. Almeida



fotojoao chaves

domingo, março 06, 2011





















Já se foi a inocência
Numa barca de espuma
Levada pelas correntes
Dos dias.
Teimamos em ser crianças
Mas as marcas no olhar
E as feridas da alma
Recordam-nos sempre
A nossa condição.
Já se foi a inocência
E os sonhos…
Guardo-os na palma da mão.


Manuel F. C. Almeida


foto: SaMY

quinta-feira, março 03, 2011





















Na neblina da manhã
Ergo a cabeça e olho
Para traz.

Foram bons os dias
E os anos.
Agora vestígios de alma
Vão caindo um a um.

Até a nudez dos sentidos
Se vinca no olhar.
E no deslumbramento
Que é existir.

Encontro-me, onde não estou.

Na neblina matinal
Recordo os olhares
As mãos, os lábios
E os cheiros
De tantas gentes.

Recusar o esquecimento é
Prova de vida que se basta.

Manuel F. C. Almeida