quarta-feira, outubro 27, 2010





















Este é um rio sem respostas
Nem perguntas a fazer
Corre livre nas encostas
Do meu sangue, do meu ser

Não tem limites ou margens
Não tem passado ou futuro
O presente são miragens
O seu correr obscuro

Por isso não sabe de nada
Vazio, pronto a encher
Cava como se fora enxada
O caminho pró saber

Mas é um trabalho sem fim.
O saber nunca se alcança
E o rio dentro de mim
Será sempre rio de esp'rança.

Manuel F.C. Almeida







fotoRodrigo Molina

domingo, outubro 24, 2010





















Eu já não ouço
O canto das águas
Nem a fonte dos
Mil murmúrios.
Só os poemas
De brisa
Coloridos de ternura
Colam o teu ventre
Aos meus lábios
E fazem germinar
Os cravos rubros
Do teu peito.

Manuel F. C. Almeida


terça-feira, outubro 19, 2010






















Que posso dar-te
Para lá da saudade?
Das horas que sorrimos
E das palavras imaturas
Que te sussurrava
Nos dias em que o sonho
Nos dava asas?

Sabes, trago comigo
A tua voz
Gravada no peito
E aquele último olhar
Na noite
Em que te dei as minhas asas.

As asas que nunca resgatei

Manuel F. C. Almeida





fotoDavid Freire

quarta-feira, outubro 13, 2010















A tua voz
Com tonalidades
De arco-íris
Já é mais que
Que um sussurro
Alvo.
É um grito de amanhã
Numa alvorada infinita...


Na palma da minha mão.


Manuel F. C. Almeida


quinta-feira, outubro 07, 2010














Quando cantas o que cantas
A terra, o calor e as gentes
A melodia de aroma
Agreste
A paisagem que pintou
A tristeza em que te leste.



Manuel F. C. Almeida






fotoAntónio

sábado, outubro 02, 2010





















Ínfimo rebite de infinito
Peça incógnita de tempo
Eu habito as asas do vento
Só nele cabe a cor deste grito

E os dias corroem aquilo que sou
Definho sozinho ante o meu espelho
Jovem já fui e embora não velho
A dor do meu grito, tudo matou

Sereno, aguardo só mais um suspiro
Que seja de dor , que seja semente
Sou o que fui e sou no presente
Aquele que “era” e de quem me retiro.


Manuel F.C. Almeida


terça-feira, setembro 28, 2010





















Diz adeus ao mundo,
Às águas
E à tua vontade.

Olha-te no espelho
E descobre
Que já partiste
Sem que tenhas
Opinado sobre a viagem

Manuel F.C. Almeida


quarta-feira, setembro 22, 2010
















Finalmente entendi a canção
Que trago escondida
Na palma da mão
Fala da vida sem tempo,
Da minha existência
Grão de poeira no vento

E quando um dia me cumprir
E o meu pensar se apagar
Sei que irei a sorrir
Sei que irei a cantar
A beleza do que vi
A confusão do saber
E todo o prazer que senti
Em ter amado viver.

Manuel F.C. Almeida



fotoSAGHER

sexta-feira, setembro 17, 2010



















Com os pés na terra
Lanço este murmúrio
Contraditório.
As margens do rio
Alagam o muro
Onde me lamento.
O silêncio solta uma
Antiga canção de encantar.
E onde o sol beija as águas
Recordo o teu ser
Diluido no meu olhar.

Tudo o que um dia cantei
Foi só um sonho lunar.

Manuel F. C. Almeida


fotoDavid Freire

segunda-feira, setembro 13, 2010





















Se um vaso me fosse dado
Para plantar uma flor
Semeava com cuidado
Mil sementes de amor.

Mas como vaso não tenho
Nem artes para semear
Faço das palavras engenho
Na esperança de te encantar.

Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, setembro 10, 2010





















Neste silêncio me alimento
De palavras ocas e olhares
Inquietos.
Por isso nunca soube dos amores,
Nem das danças usadas
No encantar dos cordeiros,
E não aprendi a desvalorizar
As coisas,
Porque o silêncio só chega
Quando a bruma se descobre
Nas madrugadas do tempo
E o orvalho se dissipa
Nos sonhos inocentes
Contados ao vento.

Manuel F. C. Almeida


fotoMARIAH

terça-feira, setembro 07, 2010
















Reinventa-mos grades
Na alma
Cavamos trincheiras
No espírito
E escondemos “o ser”
Para lá das ameias dos
Nossos castelos.

Pintamos o olhar
De vazio
E negamos o canto
À terra

Finalmente
Deixamos de ser
Quem sonhámos
Entre as cinzas
Do que fomos
E o personagem
Que criámos.

Manuel F.C. Almeida


fotoSAGHER

quinta-feira, setembro 02, 2010
















Medes a linha que te prende
Ao espelho da escuridão.
Na mortalha que se estende
Habita o vento suão

“Que a vida só pode ser vida
No meio da multidão”

Fica no espelho a imagem
Desenhada a carvão
Fica também a coragem
E partes do coração

“E quando sais para a rua
Não és tu, és multidão”

Um dia estilhaças a mente
E quebras a maldição.
A tua imagem, de gente,
São mil pedaços de chão.

Manuel F.C. Almeida


sexta-feira, agosto 27, 2010















Quando em mim a alma sonha
Numa inocência alva
Mantenho os deuses cativos
Num eco de pedras e pregões.
E onde começa o canto
E o meu peito se perde
Assumo o gosto do passado
E o prazer do corpo
Num cálice de odores de memória.


Manuel F. C. Almeida


segunda-feira, agosto 23, 2010


Libertemos os sonhos,
Nas estrelas,
Nos silêncios,
Nas casas vazias,
Nas ondas do mar,
E na escuridão desesperada
Do teu olhar.

E nos lábios uma
Uma rosa

Seiva,
Vida,
Nosso amar


Manuel F. C. Almeida

sábado, agosto 14, 2010
















Como se o ventre vivesse por si só
Se encantasse apenas nas palavras
E em toda a matemática do possível
Assim entendo a pulsão que nos impele
A retomar o corpo e o sexo prisioneiros
No pensamento da culpa e do medo.
Só assim esconjuro os fantasmas
Do livro sacro e me reencontro livre
No prazer de me sentir Homem.

Manuel F. C. Almeida


quinta-feira, agosto 05, 2010













Nem o vento ou o tempo
Destroem as minhas pegadas
Marquei-as a ferro no mundo
Não serão por isso apagadas

Nasceram nos dias de mágoa
Com a raiva da cor da vontade
Beberam o canto da água
Na fonte da liberdade

E quando morte me der
Seu sopro inadiado
Ficarão estas pegadas
Escritas em todo o lado

Manuel F. C. Almeida


sábado, julho 31, 2010




















No meu caminho
Feito de sonhos e de
Mil escolhas
Há sempre milhares de
Estradas possíveis

E com elas construo
O futuro
Sempre interrogado
P'los caminhos
Que não escolhi.

Manuel F. C. Almeida





fotocamilo pina cabral

segunda-feira, julho 26, 2010




















Eu sempre quis inventar
Palavras.
Palavras com roupas diferentes
Do corpo.
Palavras que ditem segredos
Inconfessáveis
Aqueles segredos que vivem
Teimosamente dentro de nós
Que respiram o nosso ar
E os nossos sonhos
Que cintilam como aves
Nos nossos olhos.
Palavras simples que se
Escondem dos olhares
Alheios e da incompreensão
Egoísta do ego.
Palavras que nasçam
No mais puro recanto da alma
E se proclamem
Em silencio
Eu sempre quis inventar
Palavras.
Palavras com sentido
E sem ele
E que um dia se libertem
Num sopro de vento
Ou nas asas da imaginação.
Palavras de excessos
Ou de contenção
Onde o teu nome seja apenas
Um conceito da saudade
E as letras
Pétalas de um flor por recriar
Eu sempre quis inventar
Palavras
Para um dia te cantar.

Manuel F. C. Almeida





fotoAntónio Stª Clara

sábado, julho 17, 2010


















Sento-me
Nas pedras do monte
A desenhar o teu nome
No chão e
A soletrar palavras de amor
Para que não partas de mim.
Ensaio um poema sem rimas
Sem métrica, ou musica.
Sem ventos ou tempos.
Sem lábios ou mãos.
Um poema vazio
Feito só de palavras, que
Se soltam livres
Como jovens e belas águias.
Olho em redor
E encho-me com o silêncio
Atroz das minhas testemunhas.

Manuel F. C. Almeida