sábado, março 22, 2008







III





FOTO BY:
Luis Mendonça



Perdido no abandono
Do corpo
Descubro no outro
O desejo de parar
O tempo.



Manuel F.C. Almeida

sexta-feira, março 21, 2008







II

foto by:Ricardo


No anseio húmido
Dos lábios
O tempo cavalga
O impulso da luxúria.


Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, março 19, 2008




o tempo

I

FOTO BY:bruno silva



O tempo vive no olhar
Dos homens.
Eleva-se rápido de encontro
Ao tédio e á morte.


Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, março 17, 2008






criação




foto by: Marta Ferreira - www.mfotografia.com






No teu cálice fecundo
faço a vida.
bebo o mundo.


Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, março 14, 2008





tela




Desenho os teus lábios
Com espuma viva do mar
E em teu ventre
Deposito os frutos
do meu cantar.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 12, 2008



Do nada tudo acontece

foto by:MARIAH








Vou um dia levantar os olhos ao universo e agradecer os dias de mistério que me antecederam. Prometo faze-lo no dia em que ao amar uma mulher eu ame todas as mulheres, que ao cheirar uma flor, eu cheire todas as flores ou que ao escrever um poema eu sinta a alma de todos os poemas possíveis. Vou um dia levantar os braços e abraçar o vazio como se fosse vida, porque é da vida que o universo trata. Matéria inanimada que se anima numa faísca de nada. Energia pura, sem essência, que se alimenta em si mesma como probabilidade matemática e se constrói na realidade dos tempos. Vou um dia levantar os olhos aos céus e matar os deuses dos homens, porque o universo já acontecia antes dos homens.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, março 10, 2008



ele há dias....


Ele há dias assim. Levantamo-nos e damos conta de que tudo o que se segue é igual ao dia anterior. Olhamos o espelho e quem nos olha é um estranho. Uma máquinazinha sem sentido ou objectivo. Nada importa. Arrastamo-nos num mar de tédio e de enganos. Ao nosso lado nada existe. Nem a cor acinzentada dos olhos ainda pouco habituados à luz, parece importar-nos. Estamos sós perante o que não queríamos ser. As palavras que nos dizem não passam de palavras proferidas no calor dos interesses e dos momentos. Quem somos? O que somos?
Nem para isto temos resposta. A mão que surge e nos agarra, não trás com ela nada de vivo. É a mão do hábito, a mão que teima em dar-nos cicuta que nos mantêm enlouquecidos. Até ao dia em que se descobre na sua verdadeira essência e resolve partir deixando no seu lugar um vazio ruidosamente silencioso. ..


Manuel F. C. Almeida

sábado, março 08, 2008




mulher



foto by:Amanda Com









Adormeço junto aos sabores
Do teu corpo
num cofre de cravos e
e alecrim.
E deixo o teu sorriso aplacar
o meu desejo por ti.

Manuel F. C. Almeida


quinta-feira, março 06, 2008






Sons



Foto by:Amanda Com



Vieste com a minha presença
Por entre o fruto vivo
das coxas
e o esplendor da língua
nos seios.
E o verbo perdia-se
Por entre os sons
Retorcidos
Dos corpos
Em espera.


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, março 04, 2008







Impressão digital



FOTO: BYRafael da Silva Macedo






Uma vaga impressão digital
Pressionando o espírito.
A demência selvagem
Dos corpos putrefactos.
O catalizador
Que de olhar fixo
Exorciza o tempo
E o teu corpo
Dança numa fina
Linha de vento.


Manuel F.C. Almeida

domingo, março 02, 2008


CONSTELAÇÃO


A suavidade das cores anuncia a chegada dos dias. Do fogo solar falam-nos os raios da madrugada. Da poesia o corpo em contra luz de uma garota de seios pequenos e vivos.
O poeta canta a letra patética e insidiosa do sexo adiado. Das suas mãos solta-se o verbo, dos olhos o desejo e o corpo exala um perfume adocicado a tédio.

Manuel F.C. Almeida

sexta-feira, fevereiro 29, 2008






wild side


foto by:carlos pereira


Walk on the wild side
E toma-me o corpo
Num copo de absinto
Translucido...


De azul pálido, carregado


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 27, 2008







PERDIÇÃO









Foto by:Amanda Com

Vagueio ao som adocicado
Das marés, e transporto no olhar
A ternura de um luar
Presente nos sonhos.



Manuel F.C. Almeida



segunda-feira, fevereiro 25, 2008




SUSSURRO




FOTO BY:Hugo Macedo



Desafiei o poema que bailava
Entre os meus dedos.
E as palavras que saltaram
Sussurraram-me teus segredos.


Manuel F. C. Almeida

sábado, fevereiro 23, 2008





TU





foto by:Amanda Com








Ocupas no meu corpo o universo
Que um dia quis ter conhecido
Desenho-te em cada verso,
Que nos segreda o que por nós
Já foi vivido
Cheiro, sabor, recordação
Da troca que fizemos tantos dias
Dos corpos nus, agitação
Dos mil orgasmos
Que sentias.


Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, fevereiro 21, 2008






POUSO



FOTO BY:Fernando Bagnola







Nesta estranha acalmia dos dias, meditar um poema nas páginas de um livro qualquer, é como deixar crescer o silêncio dentro da alma sem que nada impeça o tempo de nos conduzir através do seu vector invisível. É nestes momentos que descubro a tua silhueta em contra mão e pouso o olhar na tua sombra.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, fevereiro 18, 2008






OLHAR



foto by:Marcos Sobral Nudes & Fashion



No fim da tarde, quando as cores se desvanecem e as aves se recolhem
Encontro enfim o teu canto, na linguagem contemplativa
De um olhar apaixonado. Mistério da existência. Corrida amarga
Contra o tempo. A teu lado o ópio entorpece-me os sentidos e a visão tolda-se ao leve toque do olhar.


Manuel F. C. Almeida

sábado, fevereiro 16, 2008








PORQUE AINDA HÁ HOMENS COM ESPINHA DORSAL

(Embora corram o risco de ser presos como o sindicalista).

ESPECTACULO:

CANÇÕES ANARQUISTAS


Não me pergunto onde vou

Os caminhos nunca acabam

Andorinhas de asa negra

Só vivem enquanto voam·

De polícia já estou farto

Civil ou republicana

De presidente de estado

Bem fardado ou à paisana·

Chapéu preto bem nos olhos

Residente em parte incerta

Trago bombinhas com mel

E os sentidos sempre alerta·

Da natureza nascemos

Vivemos com a razão

Vendo luas e não pago

Imposto de transacção.

Composição: Vitorino Salomé

quinta-feira, fevereiro 14, 2008








Descoberta

foto by:DDiArte



Não mais esqueço aquela face branca que se colocou á minha frente de lábios entreabertos no convite claro ao beijo. Recordo ter misturado os meus lábios com os dela e o sabor a canela ter tomado os meus sentidos. Beijamo-nos longa e calmamente, saboreando cada gota de saliva e desenhando com as mãos o corpo do outro. Quando acabámos deixámos os olhos falarem. Naquele dia descobri que o prazer é algo mais que um momento fugaz.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, fevereiro 12, 2008





DESERDADOS

Crianças esqueléticas deambulam
Nos montes de gordura supérflua
Da cidade,
Longe,
Dos olhos da cidade.
Dos despojos privilegiados
Da cidade.
Escondidas da cidade,
Escondidas da obscenidade
Que empesta as modas
Ricas da cidade.
E a cidade adormece devagar
Ao ritmo sacrossanto das igrejas,
Dos bares de diversão,
Dos centros comerciais e
Das consciências de avestruz, que falam
A inevitabilidade da pobreza e da fome,
E justificam as esmolas
Na nossa hipócrita existência.
As crianças esqueléticas
Um dia vão voar e exigir
O seu quinhão de humanidade.
Deixarão de ser coitados
Submissos.
Sairão dos seus lugares
Miseráveis
E virão, rumo à cidade tomar,
Com os olhos ocos de sentimentos,
A vida que lhes roubaram.
Abandonarão a inocência
Que a cidade tanto aprecia
E como DESERDADOS
Virão cobrar a herança da vida
Que lhes foi negada.
Numa raiva sem forma,
Sem história, sem nada...


Manuel F.C. Almeida