quarta-feira, maio 09, 2007



FOTO BY: Miguel Delgado e Silva

Tomei-te o rosto
De um trago
Aspirei-te o perfume
De fêmea
E desfiz contigo
As nuvens
Do meu horizonte.

Manuel F. C. Almeida



foto by:Paulo Penicheiro

Entrámos num lugar rústico. Agradavelmente decorado com materiais da região. A dona de imediato cumprimentou a Isabel e a Elouise. Indicou-nos uma mesa e por artes mágicas fez surgir uma travessa com queijos e enchidos da região. Olhei para tudo e não consegui evitar uma sensação de revolta. Afinal eu não podia comer nada daquilo e o aspecto era magnífico.
- Em que pensas – perguntou a Isabel
- Em nada de especial, nas minhas limitações.
- Mas que tem? – Perguntou a Elouise.
De forma breve resumi a minha história clínica, que infelizmente não é famosa. Estava a meio da história quando, para espanto meu, a senhora me traz um bom peixe grelhado e para as senhoras umas boas migas com entrecosto de porco preto. Era injusto mas fiquei espantado. A Isabel explicou-me que tinha tomado a liberdade de encomendar peixe para mim. Era uma delícia. Aliás ambas eram uma delícia mas não mais que isso. Eu estava a viver um drama enorme. O trabalho que me propunha fazer estava feito. Era só elaborar um relatório e podia partir. No entanto apetecia-me ficar ali mais uns dias. A companhia da Isabel era tão agradável. Sabia que não era mais que isso. Mas sentia-me em casa quando estava perto dela.

terça-feira, maio 08, 2007

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homenagem aos G.N.R

Vou sonhar que te amei
Que te encontrei
Numa gruta iluminada
Vou cheirar que te amei
Que te tomei
Numa estrela abandonada
Vou cantar que te amei
E que te achei
Á boleia nesta estrada.


E sempre que te olhar
Vou-me encontrar.
Nesta vida amortalhada
E sempre que te olhar
Vou-me encontrar
Nesta vida adiada.


Vou sonhar que te amei
Que te olhei
Estavas nua, convidada
Vou sonhar que te amei
E que cheirei
Tua púbis orvalhada
Vou sonhar que te amei
Que te beijei
Numa ânsia entesada.


E sempre que te olhar
Vou recordar
Uma promessa adiada.
E sempre que te olhar
Vou recordar
Uma face calculada.


Vou sonhar que te amei
Que te matei
Numa hora malfadada.
Vou sonhar que te amei
Que te deixei
A canção está terminada.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, maio 07, 2007



Foto by: helena margarida pires de sousa

A teu favor tinha,
A sensação de verdade.
O querer acreditar ser possível
Nem sabia se tinha o teu amor
Impossível.
A meu favor, tinha
A honestidade do olhar
O querer estar, acreditar
E todo este amor
Pronto explodir.
A nosso favor tínhamos
Tudo e nada
E quando vislumbrámos um rochedo
Eu… fiquei só.
Tu foste... o meu olhar ganhou medo.
A meu favor só me posso ter a mim

O caminho feito só, feito segredo..

Manuel F. C. Almeida

(a partir de alexandre O'Neill)


Mas a verdade no meu interior era a presença de quem eu tinha perdido. Não ia trair-me por nada deste mundo. E era tão doce e tão presente que queria vive-lo para sempre.
-chegámos, isto hoje ta ainda mais bonito – disse a Isabel
- Sim está maravilhoso, há tempos que não vinha aqui – respondeu a elouise.
Olhei para a paisagem. Estávamos numa das abas que ladeavam o rio. Cá de cima o rio via-se a serpentear por entre o recorte do seu antigo leito. As últimas chuvas tinham-lhe dado algum caudal e nas suas margens a natureza manifestava-se de maneira generosa e linda. Era um local maravilhoso sem duvida. Afastei-me um pouco delas e dissimuladamente voltei a olha-las. Ambas jovens, ambas belas, ambas desejáveis ambas inacessíveis para mim. Vivia uma maldição.
- vamos entrar – disse a Isabel – vens ou não?
- desculpa, claro que sim.

sábado, maio 05, 2007



foto by: helena margarida pires de sousa

Tenho um sonho:
Um dia vou fugir de todos vós.
Vou fugir de todas as coisas.
Das obrigações, das obrigações..

Irei em direção ao sol
Para o esquecer,
Subirei a montanha
Para a perder
Olharei o céu
Para ficar ausente.
E só,
lograrei fugir de mim
Lograrei fugir de mim………
No presente, para sempre.

Manuel F. C. Almeida.

sexta-feira, maio 04, 2007


Há uma lenda em cada olhar
Que se perde no horizonte
Historias lindas de encantar
Que fazem do olhar uma fonte.
Umas falam só de esperança
Num novo dia a nascer
Outras de amor e lembrança
Histórias tristes de morrer.
Há lendas que fazem os tempos
Mais cinzentos ou coloridos
Lendas que chegam nos ventos
Que me sopram aos ouvidos.
Manuel F.C. Almeida

foto by: Sérgio P.
A Isabel conduziu-nos pelos campos que começavam a apresentar o tom colorido das pequenas flores campestres. Eu seguia em silêncio. Eram muitas as coisas que me assaltavam o pensamento. Aparentemente tudo estava explicado. Tinha agora a difícil tarefa de comunicar tudo à Policia. Tinha também pela frente algumas decisões difíceis. Era óbvio para mim que me sentia deslumbrado por três pessoas. Isabel, Fatima e Elouise. Também tinha a certeza que uma outra pessoa vivia dentro de mim. Por quanto tempo mais? Não sabia. No entanto sabia que não seria honesto caso iniciasse algo sem que me sentisse preparado para tal. Sentia atracção por três mulheres, uma já presente no meu passado, outra que ocasionalmente conhecera mas que não significava mais que deslumbre a ultima era na verdade diferente. Tão diferente, que me apercebi disso no exacto momento em que a conheci. Tão diferente que me deslumbrou.

quinta-feira, maio 03, 2007


foto by MARIAH
Escrito o poema,
A maldição renova-se.
Um novo frenesim se manifesta
E se precipita na
Ânsia de um novo poema
A nascer.
Tudo se assemelha a uma
epidemia .
O poema,
O próximo poema
Todos os poemas.

Ser poeta é estar doente.

Manuel F. C. Almeida.

quarta-feira, maio 02, 2007








Dança minha concubina
Remexe o teu ventre
De encontro ao meu.
Não pares de dançar
Dança o verde da floresta
O azul do horizonte, o mar
Dança o abraço eterno do sol
Ao calor da mãe gaia

Dança minha concubina
Meu raio de tempestade,
Minha sorte, minha sina
Meu horizonte perdido
Minha praia.
Minha tocha olímpica
Minha deusa grega
Meu luar.

Dança até ser dia
Esgota-me no teu dançar.

Manuel F. C. Almeida.


Foto by:

Alba Luna

Se um dia desejares juntar-te a mim, deixo-te um segredo. Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese.
E só mais uma coisa. Diz aos meus amigos, mas aos que tu sabes que o eram de verdade, que estou na estrada que escolhi, que aparentemente estarei sozinho mas que guardo sempre comigo, a voz, a imagem dos que comigo pugnaram de perto. A minha única riqueza são as memórias que tenho. E os amigos que sempre terei.
Agora chega. Nada mais há a dizer.
Até um dia………………………..

Rodrigo Almeida

“Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese”. Argentina ou algures na América do sul?. Isto ficou-me na cabeça. Ele estava a dizer-me onde estava ou poderia estar.

Não dei pelo tempo passar, a Isabel e a Elouise interromperam-me o pensamento. Era tempo de almoçar. Fomos no jipe. Eu ia em silêncio. A minha tarefa estava terminada. Rápido demais. Teria de justificar a vinda com um relatório.

terça-feira, maio 01, 2007


É rubra a voz que levantas
No calor da tua batalha
Canta camarada, que encantas
Com canto esta muralha.

Temos de a fazer muito forte
De a construir com verdade
Façamos dela um forte
Defesa da liberdade.
Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, abril 30, 2007



foto by: carlos pereira

Vem! Surpreende-me com o teu ar
De felino na caçada.
Toma-me numa cornucópia
De luxúria insaciável.
Sacia a tua sede neste oásis
Que sempre fui em ti.
Mata a tua fome de corpo
Em mim.

Agora sabemos os dois a cor do
Frio nas noites tristes
Quando voltámos as costas ao outro.
Vamos refazer aquela tela que ambos
Pintámos de natureza.
Vamos colocar o coração no
Lugar do coração.
E fazer das nossas mãos
Minhas mãos e tuas mãos.

Manuel F.C. Almeida


Foto by:
Como sabes passei os melhores anos da minha vida, ou os que o deveriam ter sido, embrenhado nas diferentes escolas. Da primária até terminar a faculdade passei cerca de 20 anos da minha vida a ser formatado. Raramente de deparei com alguém digno de registo. Raramente me deparei com um mestre. Fui crescendo com valores impostos e hipócritas. Os conselhos familiares para ser honesto contrastavam com uma sociedade das mais corruptas que conheço. Ao exemplo familiar de amor à liberdade sobrepunha-se a vivência social pejada de gente mesquinha e com espírito delator. Na escola tudo era igual. Poucos se importavam com o saber ou se sabiam. O interesse era todo e só virado para o resultado numérico obtido. Os professores na generalidade eram uma extensão medíocre de um mundo medíocre. Ainda assim fiz o que me era pedido. Fiz tudo, como um bom rapaz. A família ficou medianamente feliz, os amigos também. Só eu continuei infeliz. Não sabia porquê, só sabia que me sentia miserável.

sábado, abril 28, 2007



Foto by

betho feliciano

Curiosas, as
Palavras procuram-se
Em telas de todas as cores.
Lá, onde se escondem
Os sentidos,
Seguem embriagadas
O conceito de um corpo,
De um amor.
E como nuvens
Dissolvem-se, em gotas
De esperança, de amizade
E de tempo.

Está a chover algures.

Tudo é eterno regresso a ti...

Manuel F.C. Almeida.

sexta-feira, abril 27, 2007


FOTO BY :
E sinto o teu regressar
Tacteando devagar
A minha alma tão diferente.

Não sei o que desejar
Muito menos que pensar
Do passado, estou ausente.

E faço dos dias poemas
Complexos teoremas
De palavras com presente

Manuel F.C. Almeida.

quinta-feira, abril 26, 2007



foto by: www.paulocesar.

Escrevo páginas com o teu nome.
Debruado com palavras mágicas,
Aquelas palavras que tudo dizem,
E nada fazem sozinhas.
Invento assim novas frases
Sem rumo certo, antes palavras sós,
Incoerentes, inconsequentes.
Frases sem sentido, que se querem
Vivas, reais e presentes.

Manuel F. C. Almeida



foto by

Marcos S. Sousa

A vinda para este lugar, o contacto com pessoas de mundos diferentes e com perspectivas diferentes acabou por me acordar. Embrenhei-me na vida como nunca o tinha feito. Dei largas à minha paixão pela poesia e pela filosofia. Apaixonei-me, vivi relações fantásticas com pessoas fantásticas. Acima de tudo aprendi a ouvir. E foi a ouvir que descobri um mundo que me esperava algures. Um mundo onde os jovens não se hipotecam aos bancos desde tenra idade, um mundo onde a noite não é passada em frente de uma caixa colorida. Não sou naif, sei que essas pessoas, provável mente, desejarão tudo isto, mas a verdade é que o seu mundo ainda está livre de tudo isto. Vivem com muitas dificuldades e superam-nas. É para um local desses que vou. Não vale a pena procurar-me, se desejar ser encontrado eu darei sinais. Tens agora a espinhosa tarefa de encerrar o que julgo vir a ser um problema de polícia. Só tu o podes fazer de forma a evitar mais complicações. Soube antes de partir da tragédia que te sucedeu. Lamento, mas a vida para ti não acabou.

terça-feira, abril 24, 2007


Já me soa no olhar
A cor de mil ilusões
Vai um Abril a passar
Vai um sonhador a chorar
As suas traídas paixões.

E chora o seu sonho traído
Sem saber mais que fazer
Chora pelo que lhe é devido
Chora por não ter agido
Na defesa do seu querer.

Manuel F.C. Almeida.


foto by Luis Miguel Mateus

Nem sempre me recordo dos minutos
Bebidos em teus seios.
Muitas vezes abandono-te e fico refém
Dos meus medos, meus receios.

Nem sempre me recordo dos tempos
Perdidos em teu sexo.
Muitas vezes deixo-me só…
Revelo-me complexo.

Pois!
Nem sempre te recordo ou me recordo
Dos dias de inocência
Muitas vezes só está presente
A cor da nossa imprudência….

Manuel F. C. Almeida