terça-feira, abril 10, 2007



foto rickybar

Tanto te escrevi
Que a candeia acesa dos meus
Olhos
Se fez farol nos teus.
E as vagas do meu peito
Carregadas de brumas de paixão
Embateram a preceito
E inundaram o teu coração.
Num assomo de almas
Que regressam.


Manuel F.C. Almeida



foto A.Brito

- Tu és único. Na verdade o tempo fez-te como o vinho do porto. – Falou a sorrir.
Comemos e saímos para o trabalho.
Não lhe disse nada sobre o meu real propósito. Aparentemente eu estava ali para avaliar o avanço das investigações. Mas o Rodrigo continuava a ser o meu objectivo. Tentei ser o mais natural possível quando lhe disse:
- Sabes por acaso que lugares frequentava o Rodrigo?
- Sei, ia muito ao bar onde fomos ontem e a um café meio recatado onde passava horas a escrever. Dizia que estava a escrever o seu testamento.
- Um testamento? Que é feito disso?
- Não sei. A polícia levou quase tudo do apartamento. Só deixaram os móveis e a roupa. Tudo o resto foi retirado.
- mas tudo? Até os livros?
- não os livros só os que estavam em casa, mas ele tinha no campo um pré fabricado, que eu ocupo agora, onde guardava tudo. Nunca toquei em nada dele. Está lá tudo.
Uma boa noticia, pensei. Eu conhecia-o era metódico, arrumado e cauteloso. Se tudo isto se confirmasse talvez obtivesse respostas.

segunda-feira, abril 09, 2007





















E se bastasse abrir os
Olhos ao mundo,
Como se fossem janelas.
Descobrir-te aí, suspensa
No tempo que foi.
Para te resgatar do meu
Medo,
Das coisas vivas, selvagens
E belas.

Manuel F.C. Almeida


foto SorrisoAlegre

Acordei cedo. O cheiro a torradas e a café caseiro despertaram-me o apetite. Estava cansado. Muito cansado mesmo. Começava a ficar preocupado. O cansaço ao acordar poderia querer dizer algo.
- Então? Toca a levantar. Vá, temos o pequeno-almoço na cozinha à espera. – Disse ela. Estava maravilhosa.
- Deixa-me tomar um duche. – Disse-lhe.
- Enquanto te preparas eu vou fazer-te uma torrada. Se necessitares de roupa diz. – Respondeu.
- Na verdade não gosto de usar roupa interior dois dias seguidos – respondi.
De imediato abriu uma gaveta e surgiu com roupa interior de homem nova.
- Eram para o António. Usa, devem servir-te – disse
Tomei duche vesti-me e quando cheguei á cozinha beijei-a a agradecer tudo.
- Meu querido, não precisavas de fazer isso. Surpreendeste-me, sabes? Julgo que não te conheço. Está diferente, ontem foste um Homem. Raramente alguém se expõe como tu o fizeste. Sei agora que a nossa amizade é muito mais sólida que uma noite. Mas que me apetecia não duvides. – Disse enquanto me fazia uma torrada.
- Também me apetecia, sabes? Mas existe em mim um conflito que não consigo resolver. É como uma maldição. Seria magnífico no momento mas seria um inferno durante muito tempo. E nunca seria genuíno. Poderia perder-te como amiga e não quero isso.

domingo, abril 08, 2007




Vive o amante amargurado
Por não saber que pensar.
Se é querido, se é desejado
Em qual é o seu lugar

E nesse eterno sofrer
Que só a si é devido
Vai todos os dias morrer
Numa morte sem sentido

Manuel F. C. Almeida


- Se desejares podes dormir no meu quarto. O Joaquim gostava de dormir só. Tenho duas camas. Uma é tua. – disse. O cansaço, o vinho, as emoções e as violentes contradições ditaram o resto. Com um pijama emprestado deitei-me no seu quarto. Ao pé dela estava sempre bem. É tão difícil fazer amigos verdadeiros e tão fácil perde-los. Basta um momento mal interpretado.
Sabes, costumo ranger os dentes – disse-lhe meio a brincar
- Tu nem dentes já tens meu querido – retorquiu sempre a rir – nem sei como te derreteste pela nossa anfitriã – terminou. Notei na voz o desejo de me provocar. Ela seria sempre assim.
- Que aconteceu ao Joaquim? – Perguntei.
- Acabou, foi-se, é assim desde sempre, não sei porquê. Não me perguntes, mas acabo sempre por me entediar. Depois ele queria ter filhos. E eu não me vejo no papel de mãe – Terminou.
Eu já a ouvia bem longe, mergulhado novamente em mim. Já tinha esquecido o Rodrigo. Já tinha esquecido a Fátima. Em mim só viviam a Elouise e a Isabel e um fantasma. E até elas estavam num limbo. Finalmente o cansaço venceu-me e adormeci.

sábado, abril 07, 2007



O recorte
Do teu corpo
Transpira
De imaginação.
E ele retoma as
Rédeas
Da vida.
planta tulipas
No coração.

Manuel F. C .Almeida

Ela notou e antes que eu me visse numa situação embaraçosa disse:
- Dorme aqui comigo. Ficarás menos só. – Era extraordinário. Só uma grande mulher poderia dar-me tanto. Beijei-a demoradamente, apenas porque me apeteceu faze-lo. Eram doces o seus lábios.
- Obrigado – retorqui ao mesmo tempo que deitava a cabeça sobre o seu colo e me deixava embalar pelo som de ligth my fire. Ela desligou a luz. E ali ficámos num momento de ternura como há muito não tinha. Quando a musica mudou e os primeiros acordes de the end se fizeram ouvir, fui transportado novamente para o meu mundo, só que agora este era matizado com o suave toque da sua mão no meu cabelo. Acabámos a garrafa de vinho. A música foi-se, e o cansaço tomou conta de mim. Sempre solicita a Isabel sugeriu que nos fossemos deitar.

sexta-feira, abril 06, 2007
















O meu canto é a tristeza
Do tempo que um dia passou
Mesmo se canto a beleza
Canto o que nunca voltou

Canto os dias que pintámos
Com cores feitas de vida.
Canto tudo o que passámos,
Na confiança perdida…

canto o horizonte perdido
na bruma que se levantou.
canto os meses sem sentido
e um sentido... que ficou.

Manuel F.C. Almeida





E quantas se me ofereceriam como ela o fazia? Assim. Sem limites. Sem exigências. Seria isto que eu desejava? Calei o cérebro, e olhei para ela. Estava linda, mantinha uma pele macia, Uns seios pequenos e redondos e firmes. Mergulhei na sua oferta e esqueci o tempo, o espaço e tudo o mais.
Mas algo não estava bem dentro de mim. Eu estava ali e não estava. Era como se quisesse fugir daquele meu eu. Claro que ela acabou por me sentir ausente. As mulheres sabem sempre quando um homem se lhes entrega. Os homens são mais distraídos, concentrados no seu ego, na sua virilidade nem reparam que muitas vezes são apenas um instrumento, vivem na ilusão de que dominam. Perdem toda a vida sem aprender a olhar. Cegos de si mesmos.

quinta-feira, abril 05, 2007
















Numa vaga de emoções
Fui tomado pela tempestade.
E da tormenta que me tomou
Reencontrei-me no prazer
De ser eu.
Assim regressámos ao nosso
Sonho de mil e um locais.
E com o olhar
Suavemente deslizámos
Sobre o outro;
Como se um olhar
Acalmasse as vagas,
Cavalgasse a tempestade,
E fizesse da tormenta
Um espelho mágico.

Manuel F. C. Almeida





Quando me dei conta a Isabel tinha colocado mais bebida no meu copo. Sentada em cima de mim com pernas a abraçarem o meu corpo, convidou-me a beber tudo de um trago. Assim fiz e quase de imediato senti todo o seu corpo colado a mim. Senti o calor dos seus lábios e foi sem limites que a beijei. Um beijo de desejo, um beijo onde seguia parte de mim. Recordava pormenores sobre ela. Mas eram insignificantes para o momento. Nada deve ser planificado. Acontece ou não. Com ela nunca tinha tido receio de nada. Podia ser eu. Com as minhas fantasias e as minhas inseguranças. Desta vez ela tinha começado o jogo. Isso agradou-me, resolvi deixar que fosse ela a conduzir-me. Em boa hora o fiz. Cheirei bem o seu corpo. Beijei-lhe os olhos, afinal ainda a amaria? Mas era estranho, quantas mulheres viviam no silêncio de mim?

quarta-feira, abril 04, 2007


E nos loucos dias
Místicos,
Abri uma cornucópia
De sentimentos;
E dela saíram todas
As células do meu querer-te
Numa explosão solar
Que me fez brilhar
No teu céu.
Agora, numa galáxia
De desejo,
Estou placidamente
Na procura do que se
Perdeu;
Nos loucos dias
Místicos
em que tudo
aconteceu.
Manuel F. C. Almeida








Tentei seguir o conselho dela, mas quando me sentei já o meu espírito deambulava pelo meu universo. Ali estava eu, junto a uma mulher maravilhosa, sedutora, adulta, que me desejava e que o dizia sem meias palavras. Ela sempre fora assim. Quando queria algo, alguém ou alguma coisa, simplesmente dizia. O vinho branco estava deliciosamente fresco. Ela tinha colocado um disco dos Doors. “ People are strange”, a memória trouxe de volta o meu passado. Como me sentia estranho dentro desta pele. Seria eu que estava ali? Ou um clone de mim? Nem eu sabia. Sem que o desejasse a imagem da Fernanda ocupou o espaço em mim. Costumávamos ouvir aquela música. Ia-mos acampar para a costa alentejana e passear pelo último refúgio da Europa. Era um prazer só nosso. Mas até esse prazer ia ficar interditado aos, que como nós, tanto o apreciavam. O tal poder local, supostamente democrático, preparava-se para invadir aquele maravilhoso local com resorts de golfe e milhares de camas turísticas. Tudo com a complacência e o silêncio dos governos eleitos. Que triste País, que triste povo. O meu espírito teimava em voar pelo passado.

terça-feira, abril 03, 2007






















Foi um sorriso a medo
Que me deste.
Eu olhei e só desejei
Fechar-to
Com um beijo
Que recordasse o passado.
Um beijo vivo de memórias.



Manuel F. C. Almeida


O jipe parou junto de uma casa semelhante à que me estava destinada. Sempre ágil saiu do carro. Segui-a como um menino. Quando entramos em casa nem tive tempo pra ver as paredes. Enlaçamo-nos de imediato num beijo que levava parte de nós. Senti que o mundo desaparecia e que estava no paraíso. Quem precisa de uma, dez ou dez mil virgens no paraíso? Nós precisamos é de criar paraísos na terra. Paraísos feitos com pessoas. Pode ser um paraíso de amor platónico, de amor consequente ou de pura amizade, seja como for com ela tinha tudo. Era o conceito de três em um. E falava a mesma linguagem que eu. Sem pudores ou moralismos. Se queria uma coisa dizia-o se não queria, fazia sentir isso.
- Estás certa de tudo? – Perguntei – não te prometo mais que umas noites, sabes que não estou preparado para relações muito profundas. Tornam-se monótonas e acabam por nos entediar. Depois sempre acontecem as rotinas e o que é belo fica banal e por vezes pesado – terminei.
Olhou para mim. Sorriu. Estendeu-me o copo convidou-me a beber
- Manuel não penses. Vive agora. Se o faço é porque quero. Tu não me obrigas a nada e sei perfeitamente quais as regras do teu jogo. Não temas gosto de tanto de ti que nunca te pediria o que não me podes dar. – Disse de forma pausada e sempre decidida. – Mas o que puderes dar eu vou aproveitar - terminou com uma sonora gargalhada. Acto contínuo senti-me ser empurrado para um magnífico sofá.

segunda-feira, abril 02, 2007






Nunca se secam as palavras
Nos rios de peito do poeta
É nesse rio que tu lavras
A palavra simples e certa

De nada vale já não querer
Todas a letras no papel
O poeta tem que escrever
Trabalha a palavra a cinzel

É pois temível a maldição
De quem na palavra se encanta.
Bate forte o coração
Quando um poeta se canta.

Manuel F. C. Almeida


- Onde vamos? – Perguntei.
- Pra minha casa, sempre esta mais arrumada e tenho um bom vinho branco no frigorifico à nossa espera. Sempre tinha gostado de vinho branco e ela sabia. Olhei-a de perfil. A fraca luminosidade dava-lhe um ar ainda mais sensual. Era estranho. Chegado aos 40 e tal anos continuava sem conhecer as mulheres. Que desejaria ela de mim? Fomos amantes, agora só amigos e daqui a algum tempo novamente amantes? Eu desejava-a, não tinha dúvidas, mas porquê? Seria só necessidade hormonal? Ou algum resto da loucura vivida por ambos? Não sabia. Nem queria saber. Todas as pessoas que me povoaram o espírito ficaram ausentes. Só ela existia.
- Que te deu? – Perguntou.
- Não sei, foi selvagem, instintivo – respondi
- Bem podias ter levado uma galheta. – disse a rir.
- Duvido! quando te sentaste, foi como um regresso ao passado. Eu senti isso e tu também. - Respondi. Ela olhou-me e o seu sorriso era o mesmo que tinha quando nos despedimos

domingo, abril 01, 2007















Sim!
Sei que me vês como um louco
Um louco apaixonado.
Um dom Quixote qualquer
Sem rocinante nem
Sancho pança.
Um amante ridículo...
Pateticamente ridículo.

Sim!
Sei que sou tudo isso
Mas que me importa
Se te amo?

E ridículos são todos
Os que não sabem amar.

Manuel F. C. Almeida

Com um o passo certo e altivo. Fiquei a olhar com um misto de admiração, curiosidade e algo mais indefinido. A chegada a esta terra tinha-me feito algo diferente. Até todo o carinho e luxúria vividos com a Isabel estavam agora a assaltar-me os sentidos. E quedei-me a olhar para ela. Estava agora na casa dos 38 ou 39 anos era mais nova que eu alguns anos. Tinha a idade certa, por outras palavras estava bonita, linda, deslumbrante. Pedi um café, a Isabel apercebeu-se que eu tinha ficado só e resolveu aproximar-se.
- Então conheceste a elouise no que de melhor tem de si mesma. Gosto muito dela. É frontal, não liga a ninharias nem perde tempo com banalidades – dizia ao mesmo tempo que se sentava bem junto a mim. O calor do corpo dela agradava-me, o cheiro também. Não era dada a perfumes, o cheiro que tinha era mesmo o dela. Não sei como reagiam os outros homens. Sei como reagi. Aproximei-me dela e, como se fora dizer-lhe um segredo, beijei-a levemente na orelha. Não fez menção de se afastar, bem pelo contrário, fez questão em me pegar na mão. Olhámos um para o outro. Já éramos crescidos e ambos sabíamos ler no olhar o que se quer. Levantei-me, pagámos, despedi-me de todos e partimos.