domingo, março 18, 2007



- a mesma razão que leva as pessoas a separem os seus caminhos. A incoerência patenteada entre a tésis e a praxis.
Fiquei-me por aqui. Não me apetecia falar. Nem me apetecia dissertar sobre o valor real que dava à Religião na história humana. Recordei com nostalgia uma frase de uma amiga sobre o tema, costumava dizer que “ não existem religiões apenas religião” radicalmente correcta.
- Mas os caminhos de Deus não devem ser confundidos com a voracidade das sociedades – respondeu. Reconheci mérito ao termo voracidade. Na verdade vivia hoje num mundo mais pobre. Menos espiritual. Tudo se compra, tudo se vende. O advento das novas formas de comunicação apenas tinha colocado a nu o vazio que cada um de nós encerra. Muitas vezes questiono-me sobre o resultado da desumanização provocada pelo falar com alguém através de um monitor.
Olhei novamente o meu interlocutor, senti o olhar das mulheres em mim. Não era agradável começar uma discussão com quem não me iria entender. Resolvi dar por terminada a conversa.
- Os caminhos da religião chacinaram milhões de seres humanos. Dispenso-os. – Respondi rápido e incisivo. Queria acabar aquilo, estava a roubar-me tempo.

sábado, março 17, 2007



- Dtº é um prazer conhece-lo. – Disse o padre. Não comungava da mesma opinião e na frieza que mostrei ficou tudo bem patente.
- Sim e a que devo a honra de tanta atenção? – Perguntei.
Olhou para mim de forma curiosa. Senti que fazia um esforço de avaliação, tentava enquadrar-me nos seus esquemas mentais. Finalmente respondeu:
- Curiosidade, simples curiosidade. Sei que não aprecia as pessoas da igreja, o que não me impede de sentir curiosidade pela sua forma de estar.
Foi surpreendentemente honesto. Coisa rara nestes personagens.
- Curiosidade em quê? – Perguntei
- em saber a razão que terá levado um homem educado no seio da igreja a trilhar outro caminho - respondeu. Mais uma vez honesto. Estava surpreendido, o mundo tem destas coisas. E o espanto é o motor do mundo segundo os gregos.
A resposta foi curta e cruel:

sexta-feira, março 16, 2007



















Na noite que me levaram ao outro lado da terra
Eu vi mortos, eu vi guerra
Vi homens com aço nos olhos
Vi todos sonhos desfeitos
De mil corpos estropiados,
Vi a morte bem presente nuns olhos amordaçados.

E os homens levavam bandeiras, hinos e mapas na mão
Levavam réguas e esquadros Pra dividir o quinhão
E tudo estava arrumado
Preparada outra guerra
Soltámos a besta no mundo
E Libertámos a fera


E em tantos anos de história afinal nada mudou:
- Um homem naquele lugar em nome de deus se imolou
- Há uma criança a morrer p’la doença que o tomou
- O herói condecorado porque outro homem matou
- O pobre que arrasta a vivência na fome que o baptizou
- O rico que nada em suor, no dinheiro que roubou.

Somos o mesmo selvagem que tudo isto alagou.

Manuel F. C. Almeida



Como já afirmei tenho urticária a estas personagens. Este ainda me fazia mais. Magro, com óculos, um pouco calvo, de aparência cuidada, relativamente novo e sem a farpela que os costuma caracterizar. Estava disfarçado. Foi sem admiração que viajei até á minha meninice e ao colégio de Salesianos que frequentei em criança. Espartanos, repressivos, castradores mas claramente mais eficazes como educadores que os dias de hoje. Detinha-me por vezes a pensar nisso. Que mudança horrenda tinha acontecido neste País. A liberdade por decreto traz destas coisas. E um povo culturalmente idiota a quem entregam a liberdade numa bandeja só pode ter uma forma de agir: destruir a liberdade. O comportamento dos jovens indiciava isso mesmo, o dos professores assustava. Alguns professores formados nas fábricas de produção em massa a que chama-mos faculdades, nunca leram nada de nada. Se lhes falar-mos em Victor Hugo, Descartes , Kant, Sartre ou Platão julgam que tratamos de gente do desporto, ou de alguma banda dos anos 60. Uma tristeza.

quinta-feira, março 15, 2007



( leiam o texto rápido, nao soube dar-lhe a pontuação correcta. resultaria bem em palco com alguns arranjos) foi de rajada.será um esboço a trabalhar.


Ás vezes tenho destas coisas! Vivia mais um dia sem sabor, igual a todos os outros, quando dei comigo a pensar como seria bom não amar. sim não amar. Ou antes, amar sem amar. Sei que é complicado pensar nestes termos. Afinal ama-se ou não se ama? Pode amar-se no passado, o que não implica amar no presente. Pode amar-se no presente amando o eterno passado. Pode inda amar-se o futuro, amando o nosso presente sem renegar o passado. Dirão: - complicado. Mas não, a reflexão é coisa séria. Nada disto é a brincar. Pensam que escrevo estas coisas prá vida vos complicar? Não pensem isso de mim. Não quero mudar as pessoas. Aqui está cada um por si. Com as minhas asas não voas!
Eu só pretendo afinal que pensemos mais um pouco, se existe sentido na vida e creiam que não estou louco. E faço perguntas ao mundo. Coloco várias questões. Será licito viver agarrado a ilusões? Depois vem a questão de saber o que se trata, será errado o prazer de ver quem em potencia nos mata. Mas que coisa esta agora, porque falei eu da morte. Mas eu Já sei porque foi. Há tempos eu descobri quem morreu e se fez forte. Eu explico. Existem alguns seres Humanos que em nome da sua verdade, viram as costas ao mundo, fazem do ódio vontade. É claro que se consomem na esperança de matar, os fantasmas que criaram e vivem para os julgar. Não julguem ser coisa rara, em cada pessoa que passa, existe um mundo de medos, de tragédias e de graça. Mas isto já vai compridinho e não vejo como sair, desta terrivel questão de onde todos vão fugir. Porque isto, pensar o amor vivendo cheio de mágoa e como estar no deserto e não ter onde beber..... Água. Estamos mortos sem saber. Vivemos numa prisão. Odiamos todo o mundo. Num mundo que é nosso irmão. Ou então deambulamos no meio da multidão, saciamos nossos corpos mas nunca o coração.
E aqueles que nos querem trazer palavras cheias de esperanças, são sempre -nossos inimigos, querem matar-nos as lembranças. Por ultimo resta dizer que há casos mais complicados, são casos de gente que ama uma só vez. Casos desesperados, porque de isto de amar muitas vezes só me revela afinal, que quem muitas vezes diz que amou, nunca teve o gosto pra tal.

Manuel F. c. Almeida








- Bom! Temos várias realidades neste país. Se olhar-mos para a orla costeira, deveriam ser todos presos. Os atentados ao meio ambiente e às pessoas foram tantos que me deixam chocado. As cidades costeiras perderam qualidade de vida. As pessoas foram despejadas lá sem preocupações de qualquer espécie. Por isso são locais violentos e nos quais a aculturação é gritante. Se olharmos para o interior verificamos uma outra realidade. O êxodo das pessoas facilitou a vida aos autarcas, de um modo geral mantiveram-se fiéis a si mesmos e o resultado foi um melhorar das condições de vida da população. Mas ainda assim existem coisas que deixam muito a desejar e que encerram alguns mistérios.
A Isabel limitava-se a ouvir com um sorriso a pairar-lhe na face.
- Tão critico e mordaz doutor. - disse o padre acabado de surgir sem se saber de onde.















Eu canto todo o meu ser
Meu mundo de aventuras;
Canto as gentes, as figuras
Presentes no meu querer

Canto alegrias, tristezas
Amores e desventuras
Canto risos e agruras
Segredos de mil belezas

Faço da vida o meu canto
Em toda a beleza que tem
Na procura de um alguém
Que faça de mim… o seu espanto.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 14, 2007


















Que pensas fazer com as palavras?
Deixa-las presas a silêncios por abrir?
E nós? Seguiremos amarrados a elas?
Ou deixaremos soltar as asas que escondem,
E iremos beber a Ambrósia
Que escorre dos corpos?

Que faremos nós com as palavras?
Não sei,
Mas quero apenas falar.

Manuel F. C. Almeida


Eu tinha notado isso havia algum tempo e estava a ficar incomodado. Felizmente estavamos já nas sobremesas. E não me apetecia comer mais nada. Estava bem. Olhei para a Isabel. Pareceu-me incomodada. Eu também o estava, sentia que algo não estava certo. Não sabia o quê. Mas era a sensação que tinha. Os convivas, que mal tinham falado para mim começaram a levantar-se. Ao canto da sala uma caixa de charutos. Num ápice grande parte dos presentes ostentavam na mão um charuto imenso e nauseabundo que pretendiam fumar com prazer. Como é idiota a sociabilização. Tudo tem horas próprias. Esqueci-me deles e virei a atenção para as duas pessoas lindas que estavam comigo. Tínhamos saído de casa, passeávamos pelo jardim da casa. Bem cuidado e muito bonito.
- Manuel, posso chamar-lhe assim?
- Claro que sim - respondi.
- Diga-me que pensa do poder local?
Era uma questão difícil. Eu tinha visto o melhor e o pior. Gente honestíssima e gente cuprrupta. Gente com verticalidade e gente que tinha cedido em tudo. Foi com naturalidade que respondi:

terça-feira, março 13, 2007











Eu escrevia-te versos todos os dias
Na candura de um olhar apaixonado
Mas tu não estavas
Tudo era só passado.

E eu encantei-me nas palavras,
Nos gestos de grinalda colorida.
E quando foste,
Nem vi que estiveste sempre
De partida

Manuel F.C. Almeida









- Não come mais nada – perguntou a Fátima – não aprecia as nossas comidas pelo que vejo – rematou.
- Não é isso, sabe que há uns anos fiz uma operação delicada, desde então tenho muito cuidado como que como. – Respondi, olhando novamente os seus olhos em todo o esplendor que os mesmos tinham. De cada vez que os olhava ficava mais incomodado e cada vez mais preso. Era melhor despachar o que tinha ali a fazer e partir. Fugir das garras da paixão era o que melhor sabia fazer. Ninguém entenderia o facto de amar a minha falecida companheira e em simultâneo me apaixonar por alguém vivo. As pessoas tendem a exigir mais que o nosso amor. Tendem a exigir o nosso mundo todo, passado, presente e futuro. trágico mas é assim.
- Então que tipo de alimentação faz? – Era ela novamente.
- Usualmente alimento-me de peixe e de muitas saladas - Isso não alimenta ninguém – disse o chefe da polícia sendo seguido por quase todos com exclamações de riso e de aprovação. Apenas o padre não concordou. Estava com demasiada atenção em mim.

segunda-feira, março 12, 2007


Que fizemos nós do nosso jardim?
Deixámos as rosas morrer
E as glicínias adormecerem
Sem água.

Tu castraste a nossa alegria
E deixaste morrer os malmequeres
No nosso jardim só restam laranjas
Amargas
Que se não podem beber.

E vimos o nosso jardim morrer
Num tempo de enlouquecer.

Manuel F. C. Almeida


E fizeste da tua vida estrada,
Construíste o teu sonho a cantar.
Tu que tens umas mãos de fada ,
nasceste pra enfeitiçar.

E andaste por mil veredas,
Mil montes, mil lugares.
Tens um passado de lendas;
Histórias feitas com olhares.

E quando falas pra mim;
quando te deixas tocar;
É estranho sentir-te assim:
Estás ali, mas a voar.

E eu faço do mundo um baloiço
Como quando era menino.
E as lenga-lengas que te ouço
Fazem de mim pequenino.

Manuel F. C. Almeida


-está deliciosa e por favor trate-me pelo nome, os títulos servem aos medíocres para se destacarem. – Disse. Simultaneamente fixei o olhar nos lábios. Bem desenhados, deliciosamente bem pintados, que me sorriam como um farol. De repente fui invadido pelo cheiro dela. Era natural, um cheiro de mulher inesquecível. Ela também percebeu e a sorrir perguntou baixinho com um sussurro de fazer arrepiar:
- que se passa Manuel? Sente-se bem?
A Isabel viu a forma nervosa como mexia as mãos e o olhar do dono da casa.
- Tem juízo, ainda te recordas do Rodrigo. Desapareceu por estes sítios. – disse-me ao ouvido.
Recordava claro. O Rodrigo tinha sido colocado no campo arqueológico anos antes. Depois de viver cerca de dois anos naquele local. Desapareceu misteriosamente. Nunca foi encontrado corpo. Na altura tinha 27 anos, era um rapaz alto, bem constituído. Gostava de alpinismo e montanhismo, coisas que cultivava com prazer e destreza. Recordava que tinha corrido o boato de que o seu desaparecimento teria algo a ver com questões de mulheres. Fiquei na altura um pouco surpreso. Era um indivíduo pacato. Trabalhador, quase obsessivo nesse campo. Nunca o imaginei d. juan e Nunca me conformei com aquele facto. Aliás um dos motivos que me tinham levado ali era o Rodrigo. Ou antes o seu misterioso desaparecimento.

domingo, março 11, 2007














Olha!
Já sei a cor da tua alma.
Quiseste pinta-la com tinta
Incolor,
Mas ela acabou por se mostrar
No seu arco-íris de pureza.
Tua alma é da cor do amor

A não esquecer
E o teu “eu” só um poema
A despertar no amanhecer.


Manuel F. C. Almeida







Funcionários vindos da cozinha serviram sopa. Finalmente podia pensar em tudo sem me dispersar. Quis raciocinar sobre o que estava a acontecer, mas a imagem dela, a curiosidade eram maiores. Dei comigo a elaborar estratégias de aproximação. Nunca tal tinha feito. Desde a morte da minha companheira que evitava aproximar-me de alguém. Os casos mantidos eram apenas de fruição física e na maior parte das vezes sentia-me mal quando o corpo se dava por saciado. Noutros casos as premissas iniciais eram pervertidas e regra geral acabava por magoar alguém. Estava farto disso. Achava possível um amor. Daqueles amores para uma vida. Era verdade que sentia a Fernanda ainda presente. Mas continuava a acreditar que teria de existir um amor sem fim. Incondicional. Seria naif mas certamente era eu. Genuíno. Transparente. Sincero. No entanto tinha a propensão para momentos impossiveis. Como diriam os poetas era o meu fado. Mas ainda assim tinha em mim espaços vazios. Téria já vivido " o amor" ou apenas tinha vivido um amor? Estas questões há muito que me assltavam o espirito.
- Então Dtº a sopa esta boa? - Perguntou a Fátima. Nem tinha notado ou saboreado a mesma. Limitara-me a comer sem ligar muito ao paladar.

sábado, março 10, 2007
















Eu fui ao outro lado do mundo
Vi estrelas novas no céu
E vi no espelho de uns olhos
O reflexo do meu “eu”

Agora sei que no mundo
Há outros que são como eu
Gente que sabe o que quer
O teu mundo é também meu.

Por isso não mais estarei só
Tu estás aqui a meu lado
Plantei uma flor no teu peito
Na boca, um beijo adiado.

MANUEL F.C. ALMEIDA

quarta-feira, março 07, 2007
















PORQUE TODOS NECESSITAMOS DE DESCANSO,
NOS PRÓXIMOS DIAS IREI ESTAR AUSENTE.
FICA A MUSICA DE RY COODER, BANDA SONORA DE " PARIS TEXAS.

FOI COM ESTAS MÃOS QUE OUSEI
AGARRAR A LUA.
E DERAM-ME
O CÉU.

Manuel F.C. Almeida



- Vê como te portas – segredou-me a Isabel ao ouvido – nada de meteres as mãos onde não deves. Não resisti a recordar-me e a dar uma breve gargalhada. Ela ainda se recordava como tinha-mos começado. Há muito tempo que não sentia o meu riso tão natural, tão meu.
Não sou o que se apelida de bom garfo. Já fui, mas creio que a necessidade obriga-nos a mudar e comigo assim foi. Por isso ao ver o que estava na mesa não pude reprimir um sentimento de náusea. As únicas comidas aceitáveis eram as saladas. Um desperdício obsceno. A minha reflexão foi interrompida pela Fátima.
- Então Dr. o que vem cá fazer? – Olhei para ela. Linda e bela, a seu lado um homem com idade para ser seu pai. A Isabel ouviu a questão e discretamente tocou-me na perna. De imediato fiquei alerta. Esperava que se movessem, não esperava é que fosse assim. se a minha viajem tinha sido comunicada porquê tal pergunta?
- Vim verificar como decorre o levantamento arqueológico. Já tinha saudades do campo! - Respondi. De imediato vi abrir-se um sorriso cúmplice.



Derramo o meu corpo no teu,
E das sinfonias do amor
Farei crescer tulipas rubras,
Transparentes como tu.
Os jardins do mundo,
Vão gritar o teu nome.
E saudar-te, libertando
um arco-íris no céu.

A teus pés, a beleza.
A teu lado, apenas eu.

Manuel F.C.Almeida