
Mata-se a vida
com a posse,
A liberdade
com a censura,
O amor com
a obrigação
e a existência
com a moral.
Mata-se o ser
Com a culpa de Viver.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ
Crescemos no sonho da unidade,
Uma unidade plena e uníssona
De nos fundirmos com “um outro”
Numa peça resistente ao tempo
E às intempéries do viver.
...Crescemos e não damos conta
Que afinal a unidade por si
É unicamente negação do “eu”.
Um subsumir da existência
Nas brumas gélidas da
Tradição em que crescemos.
A unidade sonhada é arma
De arremesso contra a felicidade,
Levamos meia vida nessa procura
E outra meia vida nessa miséria
E nunca nos permitimos ver
Com olhos de ver e de sentir
Como seria o mundo sem
Propriedades privadas ou
Amores jurados para sempre
Que nunca se cumprem
Amar é liberdade, uma liberdade
De o fazer em cada momento
Como se nunca tivéssemos amado.
E isso é unicamente ser livre
E deixar livre quem nos ama.
Manuel F. C. Almeida
Correm os rios para o mar
E no teu olhar em flor
Há uma luz que nos indica
O cais que o vento perdeu
No corpo resgatado ao tempo
Das lendas e glórias perdidas
Em lugares já sem memória
Que sopram no coração,
Em campos de rubras papoilas
Onde as palavras devolvem
A magia das manhãs
As flores se oferecem
À luxúria dos insectos
E o teu corpo se abre
Sem fronteiras ou limites
Ao prazer de ver os rios
Que correm para te abraçar.
Manuel F. C. Almeida












Cai-me o olhar, lentamente
No tempo que teimo em não deixar
Tocar-te a mão, suavemente
E recusar partir, sempre ficar
E não entendes (porque não sentes)
O sentido deste meu teimar
É nas memórias vivas e quentes
Que guardo o néctar do teu beijar
E mesmo quando passas altiva
Indiferente ao tempo e ao falar
Mantenho aqui, guardada e viva
A doce memória do nosso amar
Manuel F. C. Almeida


