segunda-feira, setembro 12, 2011
















Mata-se a vida
com a posse,
A liberdade
com a censura,
O amor com
a obrigação
e a existência
com a moral.

Mata-se o ser
Com a culpa de Viver.


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, setembro 06, 2011


















Ai quem nos dera
As palavras mudas
Os lábios descarnados
E os mundos escondidos
Do olhar.
Porque eu nada sei
Passo nas ruelas frias
Da cidade sem ouvir os sons
Ou olhar as casas vazias
Numa absorta e egocêntrica
Indiferença trocista.

Ai quem nos dera
A mensagem prateada
Nos lábios encantados
E os mundos prometidos
Nesse teu eterno olhar
Porque ao passar pela cidade
Aprendi a entender a cegueira
E o segredo que os prazeres
Encantados nos podem trazer
Em cada onda de solidão

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, agosto 31, 2011

















Como se solta a palavra
Num jardim de mil flores
Que se tinge todo o ano
Com pétalas de todas as cores

Ora amores e desamores

Encantam-se então as palavras
Na beleza do jardim
E unem-se para criar
Um poema sem ter fim

Ora cantam ora dançam

No jardim dos meus poemas
Há mil pétalas, mil cores
E ainda mais teoremas
Com pétalas de todas as cores.



Manuel F. C. Almeida

sábado, agosto 27, 2011















Quando te desejo, á distancia enorme

De um olhar

Não passo de uma duna, varrida pelo

Vento e pelo mar

Na angustiante degustação dos elementos



E se te toco com os dedos, numa ânsia

Desmedida e sem pensar

Derramo em ti tudo o que sou, num ardente

E único beijar

Na celebração da vida em todos os momentos



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, agosto 24, 2011

















Crescemos no sonho da unidade,

Uma unidade plena e uníssona

De nos fundirmos com “um outro”

Numa peça resistente ao tempo

E às intempéries do viver.

...Crescemos e não damos conta

Que afinal a unidade por si

É unicamente negação do “eu”.

Um subsumir da existência

Nas brumas gélidas da

Tradição em que crescemos.



A unidade sonhada é arma

De arremesso contra a felicidade,

Levamos meia vida nessa procura

E outra meia vida nessa miséria

E nunca nos permitimos ver

Com olhos de ver e de sentir

Como seria o mundo sem

Propriedades privadas ou

Amores jurados para sempre

Que nunca se cumprem



Amar é liberdade, uma liberdade

De o fazer em cada momento

Como se nunca tivéssemos amado.

E isso é unicamente ser livre

E deixar livre quem nos ama.



Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, agosto 12, 2011

















Onde

Estiverem nomes que me chamem

E o tempo parar em cada momento

É aí

Que me irás encontrar

A matar a sede de viver



Manuel F. C. Almeida

domingo, agosto 07, 2011




















Recordar é medir

Cada momento

Em que o desenho

Do teu corpo

Se ajustava ao meu,

Sentir na boca

O sabor presente

Do que és,

E ouvir a sinfonia

Que á noite trocávamos

Em pautas escritas a dois.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, julho 28, 2011


















Dos lábios soltaram-se

Rios de desejo

E dos beijos que trocámos

Em abraços ternos, delirantes

Ficou o sabor a sal

E a magia das madrugadas.



Manuel F. C. Almeida

sábado, julho 23, 2011


Prisioneiros da cegueira,


Nesta procura constante

Do “eu” que um dia perdemos

Não encontramos quem fomos

E muito menos quem somos

Porque já nada sabemos.



Por vezes somos só um

De outras vezes somos tantos

Que o encontro com nós mesmos

E como chuva de verão

Que apenas dá a ilusão

De mudar sem que mudemos.



Porque a mudança dói sempre

Como um parto natural

É arrancar um pedaço

Daquilo que o mundo nos deu

E que em nós sempre cresceu

Como diamante, como aço.



Verdades “inabaláveis”,

Tradições que são seculares,

Vincadas dentro do “eu”

Que destroem o que somos

E destroem quem já fomos

E que quase já morreu



Mas é tempo de quebrar

As barras das nossas celas

Libertar a “nossa história,

Destas amarras de tempo,

Deixa-la fluir no vento

Viver em pleno e em glória.



Manuel F. c. Almeida

segunda-feira, julho 18, 2011

















E colamos à pele
O manto do tédio
E todos os dias se repetem
Até á exaustão da vida.
Olhamos o espelho
E lá dentro encontramos
O que somos.

Uma imagem em
Construção nos olhos
Dos outros.

Só nos espelhos nos
Desnudamos
De nós.
Sem eles seriamos só
O que somos naquele
Lugar onde “somos”.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, julho 13, 2011














Ao despontar do dia
O corpo da noite implodiu.
Num último raio lunar
Um clamor à vida sorriu.
E foi entre as cores
Do arco-íris
Vincadas na alma,
Que a beleza do teu olhar
Me seduziu.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, julho 07, 2011
























Correm os rios para o mar
E no teu olhar em flor
Há uma luz que nos indica
O cais que o vento perdeu
No corpo resgatado ao tempo
Das lendas e glórias perdidas
Em lugares já sem memória
Que sopram no coração,
Em campos de rubras papoilas
Onde as palavras devolvem
A magia das manhãs
As flores se oferecem
À luxúria dos insectos
E o teu corpo se abre
Sem fronteiras ou limites
Ao prazer de ver os rios
Que correm para te abraçar.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, junho 30, 2011



















Que vento indomável me tomou o olhar
Que os meus olhos só vêm o que não viam?

Máscaras de uma normalidade lúcida
Num tempo em que “ser” se transmuta

E tudo se move, tudo evolui, tudo se altera
Na vida, no mundo que é um todo real

Só o pensar se mantém em cristal
Recusando assim o movimento

Ontem fui, hoje sou, amanhã não sei
Mas sei o caminho que estou a traçar

E na solidão do meu caminhar
Não há tempo a perder na vida

Resta-me pois enterrar o que fui
Abraçar o que sou e enfrentar o amanhã

Sem deuses ou deusas e sem sacrifícios
Que me tomem o corpo e a sanidade

É tempo de ir, tempo de mudar
Dizer adeus, cavalgar a saudade

Porque o caminho da memória é tortuoso
E recordar é só um perpetuar o passado.

Manuel F. C. Almeida

domingo, junho 26, 2011


















Tantos lábios, tantos sonhos,
Tantos corpos pra beijar
Tanta alegria que é vida
Tanta vida que é amar

E tudo em mim vai crescendo
Como uma onda no mar
Que quando é vida na areia
Não deixa de se espraiar

E se um dia tenho certo
Que tudo se vai acabar
E que a vida só se cumpre
No plural do verbo amar

Vou amar todos os dias
Sem fantasmas de saudade
Porque o amor só acontece
Quando amar é liberdade.


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 22, 2011















Queimo em mim os restos do que sou
Devagar teimosamente sem pressas

No espaço livre desenho canteiros
Com tulipas, cravos e amores imperfeitos

A terra alimenta-se das cinzas
E as flores descobrem-se como diamantes

Faço colares de flores vivas
Que me limito a unir, sem as colher

Dos lábios soltam-se pequenas
Gotas de vida e saltam rubis do olhar

E na escuridão do universo, algures
E em segredo há uma estrela a cantar

Manuel F. C. Almeida

sábado, junho 18, 2011



















Com que letras se deve cantar

A canção da vida e da melodia

Que leva consigo no tempo

A vida…dia após dia.

Com os segredos do sangue?

Com pétalas de alvorada?

Com sonhos roubados á terra

Fresca… depois de lavrada?



Mas cantem como cantarem

Cantem com todas as cores

Que o mundo das minhas canções

É um mundo de muitos amores.


Manuel F. C. Almeida.

segunda-feira, junho 13, 2011













Silencioso o impulso


Despe-se das amarras

Da paisagem,

Bebendo a vida no vento,

Num voluntarioso gesto

De invocação dos corpos

Adormecido sinto a tua

Mão percorrer-me os sentidos

E num ultimo fulgor

Ergo a vida e deleito-me

Com a candura dos teus

Olhos, que suavemente

Me devoram numa doce e

Antecipada luxúria.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 08, 2011















Nunca lamentes, nem chores

Não recordes nem prometas

Há sempre um mundo de amores

No coração dos poetas


Não chores os amigos caídos

No labor do dia a dia

Nem os amores vividos

Quando o amor te sorria


Porque o amor não é singular

Sendo fruto desta vida

Acontece sem avisar

Na pluralidade sentida


Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, junho 03, 2011

Num tempo sem tempo


Todos os dias se repetem

Mas chegaste sem perguntas

Nem respostas

E eu sentei-me no alto

De uma nuvem

E o prazer brilhou no teu olhar

Sem pedir nada em troca


E eu falei dos olhares perdidos

E dos sentidos por descobrir

E sem perguntas ou respostas

Ficamos quietos a olhar o horizonte


Num tempo sem tempo

Nem o horizonte amanhece


Só o presente é real

E só no presente nos descobrimos

Tudo é finito, tudo é presente

O amanhã é acidente.



Manuel F. C. Almeida

foto  http://olhares.aeiou.pt/luana%20bernardo

segunda-feira, maio 30, 2011




Elegia social



Nada pode já pintar
As cores do corpo em tédio
A indolência da vontade
Ou as simples palavras
Mudas que guardas
Dentro de ti.

Longe, nada pára o desejo
Ou o momento em que tudo
É belo e as pessoas se apresentam
Como aves do novo mundo
Entre plumagens de mil cores
E o cheiro a novidade.

Então porque não falas
Ou cantas os segredos
Da alma? Não há cobranças
A fazer e o preço a pagar
É tão baixo que não merece
Os juros do silêncio.

Não! Não queiras um teatro
De marionetas como palco
De vida, um presente indolente
Em que tudo se resume a
Uma plateia de aplausos
E um objecto decorativo.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, maio 25, 2011








Leonard Coehn
inspirou este poema
(Like a Bird on the wire)





Porque sou o que não quero
E o que quero não posso ser
Vivo sempre num desespero
Entre o ser e o não ser.

E o ser que na verdade
Está refém dentro de mim
Anseia pela liberdade
Com mirra, incenso, jasmim.

Mas só a minha vontade
Irá decidir o momento
Em que abraço a liberdade
E agarro uma asa de vento.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, maio 19, 2011



Eu vivo só, mas assustado
Pela multidão que me rodeia.
Se falo olham para o lado
Se me calo... sou só areia.
Por tudo vivo inanimado
Preso ao mundo que fechei
É lá que sou escutado
Foi lá que me criei.
Nas margens do ser e do não ser
No único local onde existi
Faço a vida acontecer
Sei que ainda não morri


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, maio 13, 2011



Molho os pés nas tuas águas
E rasgo as duvidas no tempo.
Planto crisântemos em vasos
Que florescem na tua voz

Com o olhar faço o teu molde
Que imprimo dentro de mim
E sopro a figura criada
Com a magia do vento

E nas flores que se desvelam
Do teu ventre feito noz
Saltam sementes de fogo
Que germinam entre nós.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, maio 09, 2011


Em 09/05/2004 escrevi este poema

Escondo-me num canto da noite
Dentro do meu pensar e sentir,
Tenho o sabor dos teus lábios
Presentes, sem que os conheça
E marcam-me a alma como agulhas
Que misturam o fogo com o fogo
A agua com a agua e os corpos
Separados pela linha do tempo.
Tenho o sabor da tua pele
Sonhada no silencio das noites
E a sinfonia dos dedos
No percorrer simples
De um corpo que se ergue
Ao ritmo de compassos binários
Naquela sinfonia que sonhamos
Tocar a dois, sem linhas de tempo
Ou realidades escondidas
Escondo-me num canto da noite
E na ternura antecipada de um beijo.

Manuel F. C. Almeida

 
foto: http://olhares.aeiou.pt/Papion


sexta-feira, maio 06, 2011





















Solta o silêncio
Contido
No ruidoso silêncio
De ti.
Que o silêncio que te
Habita
É o silêncio
De mim.
Abraçamos o silêncio
Que se espraia
Entre nós
Como se não houvesse
Vida
Na voz
Pouco a pouco
Devagar
Mas como bicho de traça
Vai-se o amor no olhar
E o silêncio
Já não passa.
E mesmo quando
Em silêncio
Teimamos em manter
Este fio
Burla-mos o que já
Foi amor
E que é hoje apenas
Cio.



Manuel F. C. Almeida

foto http://olhares.aeiou.pt/rodrigomolina

domingo, maio 01, 2011

Agarro o sol, que se me dá

Solto o espírito no vento
E o olhar nas ondas,
E nunca me perco da liberdade

Que generosamente conquisto
Devagar.

Contemplo a magia das flores
Em que água, vento e sol se
Transformam
E no verbo liberto o que sou

Sou parte de um todo que é beleza
E eternidade.
A minha morte é unicamente
Uma necessidade deste mundo.

A necessidade de tornar sempre
Mais belo o universo a que pertenço.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, abril 27, 2011

Esta noite sonhei com um vale
Verdejante, entre versos
E rimas que se subtraiam
Á poesia encoberta do olhar.
Nos penhascos das palavras,
A coberto da confusão
Dos conceitos, encontrei
Um nome. Um nome único
Como são todos os nomes
Porque os nomes, nomeiam
Pessoas e todas são únicas.
Era o nome “Amigo” e todas
As suas letras estavam bordadas
A ouro e era delas que a luz surgia
Para iluminar o meu vale de sonhos.

Manuel F. C. Almeida

foto: http://olhares.aeiou.pt/ddiarte

sábado, abril 23, 2011

Há uma solidão sinfónica entre
A alma e as gentes.
Um hiato entre o corpo
E o sentir.
Uma vaga vazia entre o “ser”
E o existir.
Foi-se a magia que engalanava
A existência
E o que resta são apenas vocábulos
Mudos.

Até as aves perderam o nome
E limitam-se a perdidas imagens
Sem luz ou conhecimento.


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, abril 19, 2011












Preso no limbo de momento
Segui o caminho que tracei
Das lágrimas fiz um unguento
E com ele me tratei

Caminhei sempre sozinho
Pese embora acompanhado
Só mostrava um brilhozinho
Quando me pensava a teu lado

E assim fui caminhando
Sem pressas ou rumo sequer
No caminho semeando
Malmequeres e bem queres

Manuel F. C. Almeida


domingo, abril 10, 2011



A liberdade de alguns ou a confusão da posse

Criação infernal
De flores e pétalas
Douradas
A liberdade “que é minha”
Tem propriedades
Privadas

Não tem face,
Nem tem existência.
É minha!
Pronto! paciência.

Que eu luto todos os dias
Pela causa da liberdade
Neste mundo de opressão
Mas o objecto “meu”
Encondo-o na palma da mão.

Viva então a liberdade
De quem comigo caminha

Desde que a liberdade só viva
Na liberdade que é minha.


Manuel F.C. Almeida





quarta-feira, abril 06, 2011



















Teimosamente recuso
As minhas faces reais

E dentro de mim, em refugio,
Vivo dilemas morais
Quem eu sou? É meu tormento.
Tanta é a confusão
Entre o que sou quando “ sou”
E a minha existência no vento.

E lá vou, vendendo a imagem
Que prometi não vender… ~

Fujo para outra margem
Quando me quero esconder.

 E só, diante de um espelho
Que parti em mil pedaços
Vejo mil imagens pequenas
No encalço dos meus passos,

Persigo-me sem me encontrar
Nunca sei a quem seguir.

Se aquele que vive o presente
Se um outro que está para vir.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, março 31, 2011




















Encontro o meu espaço

No local em que me perco.

Agito os cabelos

Ao vento e ao

Esquecimento.

Mas se odor do teu corpo

Te anuncia,

Retomo o vento

Na palma da mão,

E iço bem alta

A bandeira da ternura.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 23, 2011
















Estamos quietos, pacientes.
Os cães comem os restos da noite
E na penumbra solta-se um poema rebelde.
As damas envelhecem no sonho da eternidade
A mirarem esbeltos corpos de jovens Adónis que elas possuem
No segredo e no silêncio da solidão.
Demoradamente afago os testículos
Num prazer animal tão criticável
Como o arrancar pelos púbicos a uma santidade.

Descerro a hipócrita lápide "Para sempre"
Num verso complicado e cheios de nomes,
Entre cantares solitários e companhias presentes.
As musas cobrem-me o sonho num festim de sexo
E máscaras de lágrimas reprimidas.
O prato principal foi servido quente
E a geometria toma conta da existência.

Todo o poema se encontra encerrado
Nas pregas vermelhas da minha loucura
E teima em se descobrir á tona da demência
Saudável dos corpos em êxtase.
Teço uma teia com as faces incógnitas
Mas vivas do passado.
E nas ruas de uma qualquer cidade já morta
Pela moral e pelos bons costumes
Os corpos nus dos homens e mulheres,
Teimam em se manter como faróis da liberdade.

Manuel F.C. Almeida

domingo, março 20, 2011





DIA MUNDIAL DA POESIA











No canto da noite
Escondem-se os poetas
E as vidas.

No canto da noite
As ondas choram
Repetidas,

No canto da noite
A tua ausência
São asas perdidas.



Manuel F. C. Almeida


foto cassio sales

quinta-feira, março 17, 2011


Solta o silencio
contido
nesse silencio
de ti
que o silencio que
te habita
é o silencio
de mim.
Abraçamos os silencio
que se espraia
entre nós
como se não houvesse
vida
na voz.
Pouco a pouco,
devagar,
mas como bicho de traça
vai-se o amor no olhar
e este silencio
não passa.
E até, quando em
em desejo,
teimamos em burlar
o silencio
Burlamos o que
já foi amor
e é hoje apenas
cio.
Manuel . C. Almeida

domingo, março 13, 2011
















Era tarde na avenida da liberdade
Artistas desconhecidos deambulavam
Na sombra secreta das árvores.
As putas percorriam a calçada
De cigarro na mão e saia curta.
Um bêbado dormitava num banco
Indiferente ao som constante dos carros.
A polícia percorria de carro a avenida
Na ânsia doentia do acontecimento
Inesperado da função.
Impecavelmente vestido o desconhecido
Percorreu a avenida, trocando olhares
Com as putas, com o bêbado e com a polícia.
Cansado, sentou-se num banco
Podre pelos dejectos dos pombos…
Como é bela a avenida da liberdade
Em part time.

Manuel F.C. Almeida


terça-feira, março 08, 2011


Ao meu amigo
"MIMI" CABOZ
E
A TODOS
OS AMIGOS
QUE PARTIRAM




Já partiste
Meu amigo.
Do teu passado
Resta a tristeza
De um olhar
Ausente
E a mágoa
Presente
De te re(perder).
E foste
Caminhaste
Como todos
Os amigos
Partem um dia,
Sem tristezas
Ou promessas
Por cumprir
Simplesmente
Procuras no tempo
O teu lugar.



Manuel F.C. Almeida



fotojoao chaves

domingo, março 06, 2011





















Já se foi a inocência
Numa barca de espuma
Levada pelas correntes
Dos dias.
Teimamos em ser crianças
Mas as marcas no olhar
E as feridas da alma
Recordam-nos sempre
A nossa condição.
Já se foi a inocência
E os sonhos…
Guardo-os na palma da mão.


Manuel F. C. Almeida


foto: SaMY

quinta-feira, março 03, 2011





















Na neblina da manhã
Ergo a cabeça e olho
Para traz.

Foram bons os dias
E os anos.
Agora vestígios de alma
Vão caindo um a um.

Até a nudez dos sentidos
Se vinca no olhar.
E no deslumbramento
Que é existir.

Encontro-me, onde não estou.

Na neblina matinal
Recordo os olhares
As mãos, os lábios
E os cheiros
De tantas gentes.

Recusar o esquecimento é
Prova de vida que se basta.

Manuel F. C. Almeida


domingo, fevereiro 27, 2011




















Só a culpa inibe
O olhar da nudez
Na dança instintiva
Do desejo.
Os deuses que se ouvem
Em nós
E nos cobrem com a sua vergonha,
São os mesmos que rejubilam com
O festim da guerra santa.

Manuel F. C. Almeida


terça-feira, fevereiro 22, 2011














Cai-me o olhar, lentamente
No tempo que teimo em não deixar
Tocar-te a mão, suavemente
E recusar partir, sempre ficar

E não entendes (porque não sentes)
O sentido deste meu teimar
É nas memórias vivas e quentes
Que guardo o néctar do teu beijar

E mesmo quando passas altiva
Indiferente ao tempo e ao falar
Mantenho aqui, guardada e viva
A doce memória do nosso amar

Manuel F. C. Almeida

fotoCaroline Buranelli

sexta-feira, fevereiro 18, 2011


Homem me fiz,
Corpo e razão

Alimento o meu ser
De sonhos e vento

Sou escravo de mim
Sou escravo do tempo

Mas escravo que sabe
A sua condição

É sempre homem livre!

Manuel F.C. Almeida

sábado, fevereiro 12, 2011





















Sem pressas procuro
A constância
Nesta paixão feita
De sombras.
Linhas de tempo
Que se cruzam
Na memória viva
Do silêncio
Que me chega á noite
Quando cerro os olhos
E o sonho
Me ocupa a vida.
Difuso, o corpo
Que não conheço,
É um raio de luz
Quando adormeço.

Manuel F. C. Almeida


segunda-feira, fevereiro 07, 2011
















Na minha mortalha
Descanso.
Finalmente repouso
Dos dias distantes e frios
Do teu olhar,
Do vazio dos gestos
Por dizer,
E das palavras ditas
Por fazer.
Na minha mortalha
Já não caminho a tua alma
Nem aspiro a conhecer
O teu corpo.
Na minha mortalha
Revivo a minha vida,
Prestes a levantar-me
E a recusar a morte
No teu não querer.

Manuel F. C. Almeida


fotoSAGHER

quarta-feira, fevereiro 02, 2011





















Deixei que a bruma se encerrasse
Numa arquitectura encantada.
Toda a beleza se resguarda
Na eternidade do nada.
Perdida a palavra nos rios
De sal e fel, leitos de alma
Não traz o eco dos tempos
Nem com os ventos se acalma.


Manuel F. C. Almeida


foto Tuca

segunda-feira, janeiro 24, 2011





















Digo-te adeus, porque te digo
Que os silêncios são barreiras
Construídas na mente,
São vida fossilizada
Pela ausência e pelo tempo,
São horizontes num
Universo paralelo,
São olhares vazios
Sem objecto,
São palavras vivas
E não soletradas

Digo-te adeus, porque te digo
Que o amor é algo mais
Que o corpo em fogo,
É desejo de beber
O néctar de mil papoilas,
É procurar o universo
No outro olhar,
É sentir nas mãos
O aroma de mil frutos,
É ser desassossego
No ser.

Digo-te adeus, porque te digo
Que somos palavras por dizer
Que não estão apaixonadas.

Manuel F. C. Almeida



fotoMRVM





quarta-feira, janeiro 19, 2011
















E de repente com as mãos
Rasgaste a vontade
E esqueceste o sonho.
Esculpiste o coração
E colocaste-o numa caixinha
Escondida dos olhares do mundo.

Olhaste e recuperaste o passado
Mas sem coração não há magia
E tudo transparece um dia,
Como um vidro.
Então o que vês é o que queres,
O que escolheste.
E nunca o que o coração
Pintou com as cores
Da vontade.
Esse quadro será sempre
Só teu. Guardado num recanto
Da alma.

Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, janeiro 14, 2011





















É nestes dias em que chuva
Diz presente, que me cubro
Com o mistério da ausência
E procuro entender a vida.
Então olho para dentro de mim
E tacteio os amores do tempo
Na ânsia de reencontrar
O calor das almas esquecidas.
Porque em cada corpo possuído,
Em cada olhar que deixei cair
Teima em vibrar uma corda
Que me une a todos eles.

E sinto o mundo comprimido
No silêncio estéril do passado.

Manuel F. C. Almeida


domingo, janeiro 09, 2011
















Com garras de vida
Rasgo o pensamento
E dilacero-o em mil pedaços
Que teimo em lançar
Aos deuses.
Um poema,
Uma estrada,
Um caminho sem sentido
Uma pergunta de espanto
Que margens terá
O meu rio?

Manuel F. C. Almeida


foto: SAGHER