quarta-feira, agosto 11, 2021


 








Canto da partida


Toda a partida é um adeus definitivo

Quando partes deixas para trás um mundo

Único, que o tempo irá alterar

Tal como te altera a ti

Guardas na memória um local

A que jamais regressarás.

Tudo muda, é assim a natureza das coisas

Até tu mudas e se ao regressares te recordas dos

Cheiros e das pessoas, e tentas repetir os gestos

Repetidos milhares de vezes

Desengana-te, nada é o que foi

Só na tua memória, e mesmo essa não é confiável,

Existe aquele mundo que viste ao partir

Partir é o cortar do cordão umbilical

Com os sítios e as pessoas

É um renovar doloroso do ciclo da vida

Um enterro do passado no tempo

O passado que sonhas encontrar quando regressas

Mas os lugares mudam, os cheiros mudam

As pessoas mudam

E de repente dás-te conta da realidade

E sentes-te um estranho numa terra estranha

Já não pertences ali, até os olhares te agridem

Já não és parte do clã, da matilha

Não és de parte nenhuma.

E ficas parado, desarmado pelas memorias

Que se desmoronam…

Como um castelo de cartas no vento.


Manuel F. C. Almeida


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