
O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem
,O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ


Esta noite acordei em sobressalto, na casa do lado alguém gritava, o ruído fazia-se ouvir ao longe. Não sei que diziam, não sei que falavam. Sei apenas que gritavam. E o choro de uma criança também se fez ouvir. Na rua alguns bêbados tardios também ouviram e saudaram a algazarra com outra ainda maior. No meu quarto quedei-me a pensar na pessoa que gritava. Eu conheci-a, era jovem e bonita. Costumava deliciar-me a vê-la andar pela rua. Ela não andava, dançava; e o seu corpo de rapariga mulher sempre me despertou desejos inconfessáveis. E ali estava eu. Só. A ouvi-la gritar sem saber como ajudar. De repente o silêncio caiu sobre a noite. A criança calou-se. Os bêbados foram-se, os gritos pararam. Mas no meu cérebro milhares de vozes faziam-se ouvir. Milhares de pessoas obrigavam-me a ouvir o seu barulho. Puxei as mantas para cima de mim, numa vã tentativa de calar tudo. Mas as vozes não se foram. Ficaram ali. A zombar de mim. Pensei-me já louco. E no entanto os cisnes do quadro não se mexiam, nem as fotografias da mesa-de-cabeceira falaram para mim. Levantei-me. Estava com medo, com frio, e acima de tudo com aquela gente toda na cabeça. Ouvia crianças a chorar. Ouvia homens a chorar. Ouvia gente sem ver. Fui ver-me ao espelho. Cabelo desgrenhado, solto. Os olhos raiados de sangue. Fiquei ali a olhar-me. Finalmente todas as vozes se calaram. Estava eu e a minha imagem do espelho. Fixei-me, olhei nos meus olhos e de repente fui engolido por mim. Ainda hoje estou preso no espelho. Mas felizmente não há mais ruído.









Sonhei esta noite um poema
Feito com o som de um piano
De um lado… um teorema
N’outro lado um lindo plano
Eras céu da minha mente
E quando uma nuvem surgia
Soprava-la timidamente
E a nuvem depressa fugia.
Tua face enevoada
Estava sempre ali comigo
Afastou a trovoada
E fez de mim teu amigo
Não passo de um sonhador
Que leva a vida a sonhar
Comigo trago uma flor
Para um dia te agradar.
Manuel F.C. Almeida

Strawberry fields forever na minha versão.
Deixa-me ajudar, estende a tua mão
Deixa-te guiar em contra mão
Vais ver que tu vais gostar
De ver os campos flores a cantar
Sei que não estás só, também eu não estou
No pensamento, tudo ficou
Memória que o tempo vai levar
Que a vida vai apagar
Em campos de flores a cantar
Não. Não tenhas medo
Eu vou Guardar o segredo
Mas também te vou mostrar
Que há campos de flores a cantar.
Sei que não estás certa de nada
Vives receosa, acossada
Mas pode alguém estar
Livre de errar?
Só os campos de flores a cantar.
Deixa-me tocar a tua mão
Deixa que o olhar tudo leva
Um dia serei Adão
Um dia tu serás Eva
Há um grito de esperança no ar
Nos campos de flores a cantar.
Manuel F.C. Almeida













eu ontem fiquei a saber
uma nova realidade
que já não interessa amar
e nem tudo o que se diz é verdade
para eu tentar perceber
comportamentos neuróticos
inventaram um conceito
fomos amigos eróticos
escolhe-se então um amigo
e com um pouco de arte
dão-se umas quecas com ele
antes de o pôr de parte
sendo rapaz sempre pronto
aberto a novas experiências
vou passar a convidar
amigas pra “confidências”
e quando elas pensarem
que aquilo é coisa de amar
digo:- desculpa lá filha,
é erotismo a brincar








