sábado, dezembro 31, 2011










Canto de amor livre




No caminho ergueste o prazer
Em torno de silêncios e palavras mudas
Afloraste os sentidos e o corpo
Com olhares de entrega e desejo
Sangraste a paixão libertando assim
A ânsia sôfrega da posse.

E á noite, quando as memórias
Sangram o tempo e as mãos
Se perdem vazias na doçura
De tactear o passado, estendes
A alma e os teus segredos
No tapete que bordaste à mão.

Olhas quem te tomou o corpo
Mas nunca o espírito, quem te
Desfolha e te seca a carne,
Mas nunca esqueces quem
Te pintou as pétalas do olhar
E livre te deixou para voar.

Porque as memórias são o presente
Que a vida nos dá no caminho.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, dezembro 28, 2011





















Agora recordo
Que a poesia não
Esconde nada.
Nem as palavras
Nem o silencio.
Só espelha a
Voz no tempo
E o desejo de
Tomar os corpos
E celebrar a
Vida em pleno.

Manuel F. C. Almeida

domingo, dezembro 25, 2011
















Por todo o lado em Portugal
Celebra-se o natal.
Numa estranha unanimidade
Pobres e ricos, são agora como irmãos.
Nos concelhos de todo o país
É tempo de festividades.
As famílias, unem-se, uma vez por ano
Em redor de uma mesa.
Os mais velhos desejosos de sossego,
Os do meio desejosos de sossego
Os mais novos com um sorriso na face
Antecipando gulosamente os presentes da praxe


que de imediato irão mostrar aos meninos sem natal.
É assim o natal, um dia em que todos abdicam
Da sua felicidade em prol da infelicidade coletiva.
Esta época é tão importante em Portugal que,
Todos os portugueses se sentem imbuídos do seu espirito.
Comunistas, socialista, sociais-democratas e outros que tais
Todos celebram o seu natal em paz e harmonia.
São as decorações das ruas que trazem mais cor e brilho
São os presépios de agradecimento ao senhor
São cânticos ao Deus menino que nas palhas
Foi parido.
É tão bonito…o natal
Nas ruas os pobrezinhos são presenteados com
O lavar da consciência dos outros.
Chama-se caridade, há quem lhe chame
Solidariedade, mas vai dar ao mesmo
Dar um pouco daquilo a que todos têm direito
Mas que todos os dias lhes é negado.
E é isto e muito mais o natal
Em Portugal.
E no mundo ocidental.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 22, 2011




















Teu nome, guardei-o a sete chaves
Numa caixa dourada nas folhas de
Um velho caderno, que cheire a papel
Quando o voltar a ler.
Nada mais que memórias, confronto
E um rasto de inutilidade nunca
Resolvida.
Sem palavras ou sem olhares
Transformámos a amizade em algo
Externo à nossa vivencia
E nem do toque dos lábios
Ou das letras do nome nos recordamos.

Quem não sabe resolver o passado
Raramente resolve o futuro.
Toda a existência passa então a ser
Uma presença no deserto
Um grito reprimido no peito
Um sentir de não sentir
Um arrastar miserável da existência
Por caminhos sempre incógnitos.

O teu nome, guardei-o a sete chaves
Numa caixa dourada nas folhas de
Um velho papel que o tempo vai
Consumir.
Porque o tempo tudo limpa, e tudo lava
Só não pode tratar os muros
Erguidos pela memória.

Manuel F. C. Almeida



foto: Ana Alba Luna

domingo, dezembro 18, 2011

















Presente nas palavras,
Escondido nos conceitos
O poema resolve-se
No abrir dos lábios em chama
E nos olhares que se
Ausentam
Dos dias e das noites
De paixão, como o anjo
Que reproduz a dualidade
Divina e a isenta de culpa.

Manuel F. C. Almeida

foto : Ana Alba Luna.

quinta-feira, dezembro 15, 2011



















Perdi o olhar
Num local qualquer
Onde também
Ficaram as palavras
E os sonhos inocentes
De felicidade.

Tacteio o horizonte
Com o pouco que me ficou
E questiono-me sobre
O que sou.
Dão-me abraços, beijos
E flores
Muitas flores
Decoradas com estrelas
E lágrimas de cristal.

Mas as flores desfazem-se
No tempo e as lágrimas
Corroem-me os dias.

Tenho mil olhares
Sobre os meus ombros
E o enorme desejo
De explodir
Numa orgia de vida,
Na ultima prova de que vivi.

Manuel F. C. Almeida

domingo, dezembro 11, 2011





Amor









Costumava escrever-te poemas.
Poemas em que derramava
O meu sentir, a doçura que
Escondo do mundo e que me
Trespassa o olhar quando te vejo.
Eram poemas de amor, poemas tolos
Como só os poemas de amor o sabem ser.

Costumava cantar o teu corpo
Como se de uma aurora falasse
E espraiava nas palavras o som
Do meu coração.
Eram poemas ternos, de uma ternura
Minha, criada e crescida dentro de mim.

E apaixonei-me pelas palavras
Que te criaram.
Eram minhas, nunca foram tuas.
E como todos nós, apaixonei-me
Pela minha ideia do outro.
Porque o outro vive, tal como todos nós,
Dentro de si e das suas construções
Na liberdade de ser quem é Humano


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 08, 2011






















Quando amar se resolve
Na liberdade de amar
Outra dimensão nos envolve
No reencontro do olhar
Um olhar da liberdade
Que tantas vezes nomeamos
Um olhar feito vontade
Um sentir de quem amamos
E só assim se pode amar
Com toda a essência de ser
Na liberdade de olhar
Quem em liberdade nos quer
E nesse querer sem medida
Nesse amar para lá de ter
Reside o segredo da vida
Sentir que amar é viver.

Manuel F. C. Almeida

domingo, dezembro 04, 2011




















Há na espera de ti uma magia
Doce e suave
Há a sombra ao cair da tarde,
Um beijo contido no pele,
Um olhar desassombrado

Há na espera de ti um coração
Encantado

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 01, 2011

















Há viagens dentro de nós
Silenciadas pelo mundano.
Viagens ao que somos,
Viagens ao que tememos,
Viagens escondidas dos outros.
Coisas que só nós sabemos que existem.
Segredos inconfessáveis,
Porque em cada um há um mundo
Que deixámos para trás
Um mundo de escolhas
Inutilizadas
Mas que continuamente
Nos interrogam.
Há viagens dentro de nós
Que nunca irão acontecer
Porque é tarde
E escolher é isto mesmo
Sentir as dores das escolhas.




Manuel F. C. Almeida

domingo, novembro 27, 2011



















Meu país
Adiado
Minha casa
Ancorada
Minha bandeira
Escondida
Minha ferida
Infectada
Meu corpo
Inanimado
Minha verdade
Perdida
Minha voz
Amordaçada
Minha vida
Adormecida
Minha morte
Anunciada
Minha esperança
Esquecida.


Na tela da minha mortalha
Só o planeta é vida.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, novembro 23, 2011



















Sente-se a confusão dos tempos
Nas folhas soltas de um Outono
Igual a tantos outros.
Os corações soltam-se na angústia
Prenhe de bruma.
A poesia é isto mesmo, um escrever
Nas folhas o que está escrito
Nos dias.
Algures o encanto das palavras
Faz sorrir um coração
E o sonho impossível do poema
Cria orvalho no olhar.
A mão que se estende ou o sorriso
Que nasce ao passar dos dias e dos tempos
Fica muda, sem canções.
O vento brinca com as andorinhas
E o clamor da terra deixa-nos sempre
Assim…
No canto dos poemas vive-se sempre
As angustias da alma.

Manuel F. C. Almeida

domingo, novembro 20, 2011


















O olhar cerrado grita
O silêncio da loucura
Que se mascara em sorriso.
Nada fica
Tudo parte.
E os pássaros que voam ao sul
Esquecem o céu
E a cor dos loendros.
E o silêncio permanece
Um mistério do olhar cerrado
E de cada vez
Que os olhos se entreabrirem
É a visão da loucura e
O medo do homem que acorda,

Que vão
Encontrar.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, novembro 17, 2011















E só o sono me encontra
No ventre secreto
De onde retiro
O sonho que me
Anima os dias.

Manuel F. C. Almeida








domingo, novembro 13, 2011
























Já não te chega o dinheiro
Pró teu filho alimentar
Trazes a raiva contida
No coração a sangrar



Vives a vida que querem
Não te deixam levantar
O desespero que sentes
Vai um dia rebentar



Teu mundo é uma tristeza
Que parece não ter para par
Só o olhar do teu filho
Te dá razão pra lutar

Levanta a cabeça e agarra
Tens o futuro a mudar
Nunca te entregues sem luta
A vida faz-se a lutar

Às promessas que te fazem
Não as queiras tu tomar
O teu filho merece
Que venças a ondas do mar.




(a partir de um tema de Zeca Afonso: menina dos olhos tristes, aproveitando a musica)






Manuel F.C. Almeida

terça-feira, novembro 08, 2011






















Já nem sei se poderei
Iluminar estas sombras
Que dentro do meu pensar
Se condensam em nuvens
De cinzas.
Já nem posso reaver
O canto das águas
Nas memórias que
Guardam as chaves
Do tempo.
Do nosso tempo.
Daquele tempo em que
Os olhares sorriam e se
Perdiam nas cascatas
Dos corpos em êxtase.
Já nem reconheço os
Cheiros, ou os recantos
Dos nossos segredos
Das nossas cumplicidades.
Ficou de tudo uma brisa suave
Uma brisa de mar
Que vai e vem ao sabor
Das marés, desencontradas.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, novembro 03, 2011
















Por vezes há noite, antes dos braços do sonho
Me tomarem, no seu regaço, sinto o desejo de
Pensar que o mundo é linear. Que há gente
Boa e gente má, que ao branco se opõe o negro
Que existe algures um equilíbrio racional.
É nas horas em que me descubro só, cada vez
Mais só, um eclipse humano tomou conta de mim.
Se existo ou não, jamais saberei, porque pensar
Nada prova, para além do vazio do escuro e
Da ausência. Acompanha-me nestas viagens
A incerteza dos sentidos, uma incerteza pulsante
Viva, presente. E quando os murmúrios do silencio
Se descobrem, abandono-me no sonho de que um
Dia alguém surgirá do nada para me estender a mão,
Me afagar os cabelos e me segredar doce e ternamente
Amo-te.
Mas as manhãs trazem sempre um novo dia
E o corrupio sem sentido de me encontrar
Novamente só….no meio da multidão.

Manuel F. C. Almeida

sábado, outubro 29, 2011



















Eu não escrevo poemas para as pessoas.
Nem me importa o que pensam.
Os meus poemas são sinfonias
Que se escondem em mim, para lá dos sons
E da simples existência.
Neles amo, neles odeio
Neles prometo o que não posso
Neles sonho, neles me traio
E neles construo o meu mundo
Longe dos olhares dos outros.

Na minha alma os poemas
Espelham a solidão.





Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 23, 2011




















Um novo dia se segue
Ao dia que já passou
E o sonho que se persegue
É o que nunca se sonhou

E vêm bruxos e bruxas
Esquisitos animais
Sedutoras e alvas coxas
Corpos em mil bacanais.

E despedaçam-se as almas
Em ritos sabotadores
Deflagram-se os olhares
Em bocas de mil sabores

E tudo é como o vinho
Bebido com ansiedade
Em cada corpo acabado
Esconde-se uma verdade

E no dia que se segue
Ao dia que já passou
O sonho não se persegue
Porque o sonho terminou.


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, outubro 19, 2011

















Recolho nas mãos
Uma gota de memórias
Vertida do olhar.
Reencontro nela
A alma que um dia esqueci
Perdida entre as faces
E corpos em que vivi
E na vã tentativa de me
Resgatar, deixo o sol
Secar as memórias
E guardo nas mãos
O sal que dei á vida.

Manuel F. C. Almeida