domingo, novembro 20, 2011


















O olhar cerrado grita
O silêncio da loucura
Que se mascara em sorriso.
Nada fica
Tudo parte.
E os pássaros que voam ao sul
Esquecem o céu
E a cor dos loendros.
E o silêncio permanece
Um mistério do olhar cerrado
E de cada vez
Que os olhos se entreabrirem
É a visão da loucura e
O medo do homem que acorda,

Que vão
Encontrar.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, novembro 17, 2011















E só o sono me encontra
No ventre secreto
De onde retiro
O sonho que me
Anima os dias.

Manuel F. C. Almeida








domingo, novembro 13, 2011
























Já não te chega o dinheiro
Pró teu filho alimentar
Trazes a raiva contida
No coração a sangrar



Vives a vida que querem
Não te deixam levantar
O desespero que sentes
Vai um dia rebentar



Teu mundo é uma tristeza
Que parece não ter para par
Só o olhar do teu filho
Te dá razão pra lutar

Levanta a cabeça e agarra
Tens o futuro a mudar
Nunca te entregues sem luta
A vida faz-se a lutar

Às promessas que te fazem
Não as queiras tu tomar
O teu filho merece
Que venças a ondas do mar.




(a partir de um tema de Zeca Afonso: menina dos olhos tristes, aproveitando a musica)






Manuel F.C. Almeida

terça-feira, novembro 08, 2011






















Já nem sei se poderei
Iluminar estas sombras
Que dentro do meu pensar
Se condensam em nuvens
De cinzas.
Já nem posso reaver
O canto das águas
Nas memórias que
Guardam as chaves
Do tempo.
Do nosso tempo.
Daquele tempo em que
Os olhares sorriam e se
Perdiam nas cascatas
Dos corpos em êxtase.
Já nem reconheço os
Cheiros, ou os recantos
Dos nossos segredos
Das nossas cumplicidades.
Ficou de tudo uma brisa suave
Uma brisa de mar
Que vai e vem ao sabor
Das marés, desencontradas.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, novembro 03, 2011
















Por vezes há noite, antes dos braços do sonho
Me tomarem, no seu regaço, sinto o desejo de
Pensar que o mundo é linear. Que há gente
Boa e gente má, que ao branco se opõe o negro
Que existe algures um equilíbrio racional.
É nas horas em que me descubro só, cada vez
Mais só, um eclipse humano tomou conta de mim.
Se existo ou não, jamais saberei, porque pensar
Nada prova, para além do vazio do escuro e
Da ausência. Acompanha-me nestas viagens
A incerteza dos sentidos, uma incerteza pulsante
Viva, presente. E quando os murmúrios do silencio
Se descobrem, abandono-me no sonho de que um
Dia alguém surgirá do nada para me estender a mão,
Me afagar os cabelos e me segredar doce e ternamente
Amo-te.
Mas as manhãs trazem sempre um novo dia
E o corrupio sem sentido de me encontrar
Novamente só….no meio da multidão.

Manuel F. C. Almeida

sábado, outubro 29, 2011



















Eu não escrevo poemas para as pessoas.
Nem me importa o que pensam.
Os meus poemas são sinfonias
Que se escondem em mim, para lá dos sons
E da simples existência.
Neles amo, neles odeio
Neles prometo o que não posso
Neles sonho, neles me traio
E neles construo o meu mundo
Longe dos olhares dos outros.

Na minha alma os poemas
Espelham a solidão.





Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 23, 2011




















Um novo dia se segue
Ao dia que já passou
E o sonho que se persegue
É o que nunca se sonhou

E vêm bruxos e bruxas
Esquisitos animais
Sedutoras e alvas coxas
Corpos em mil bacanais.

E despedaçam-se as almas
Em ritos sabotadores
Deflagram-se os olhares
Em bocas de mil sabores

E tudo é como o vinho
Bebido com ansiedade
Em cada corpo acabado
Esconde-se uma verdade

E no dia que se segue
Ao dia que já passou
O sonho não se persegue
Porque o sonho terminou.


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, outubro 19, 2011

















Recolho nas mãos
Uma gota de memórias
Vertida do olhar.
Reencontro nela
A alma que um dia esqueci
Perdida entre as faces
E corpos em que vivi
E na vã tentativa de me
Resgatar, deixo o sol
Secar as memórias
E guardo nas mãos
O sal que dei á vida.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, outubro 13, 2011

















Uma aurora que desponta
Um barco a navegar
Uma libelinha que pousa
Um grilo no seu cantar
Uma mulher que acena
Com um sorriso no ar
Uma canção já esquecida
Um poema a recordar
Uma aventura que é vida
Uma só vida para amar.

Há um abraço do tempo à
vida, no seu caminhar.


Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 09, 2011
















Correm soltos os rios,

Apertados entre fronteiras,

Nas noites de lua cheia, só os peixes

Brilham ao luar.

Sentado, o olhar perde-se

Nas margems da vida

E as canções brotam

Das fontes onde só as almas

Saciam a sede.



Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 02, 2011






















Amaro no teu ventre
Como o silêncio se faz noite
Cerro os olhos e os sentidos
Numa caixa de magia
Escondida do olhar e das palavras
E em ti me espraio
E me encontro só, oco, vazio

E no fim, não passo de um
Clandestino passageiro
De asas abertas ao vento
E sonhos adormecidos.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, setembro 23, 2011






















Resgato todo o meu ser


Na solidão da minh’alma,


E no adormecer do olhar


Há um ritual renovado


De quem teima em sonhar


Com o espaço percorrido


Com asas.





Manuel F. C. Almeida

sábado, setembro 17, 2011





















E há a candura no olhar


E uma ausência no agir


Um silêncio a gritar


Uma verdade a fugir


Há um gesto, um canto, uma flor


Uma ave, solitária


Há pedaços soltos de amor


Um poema, uma ária


Há uma vida que adormece


Na paisagem dos meus sonhos


Uma clareira que floresce


No vazio dos meus olhos





Tenho a alma corrompida


Pela traição feita á vida.





Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, setembro 12, 2011
















Mata-se a vida
com a posse,
A liberdade
com a censura,
O amor com
a obrigação
e a existência
com a moral.

Mata-se o ser
Com a culpa de Viver.


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, setembro 06, 2011


















Ai quem nos dera
As palavras mudas
Os lábios descarnados
E os mundos escondidos
Do olhar.
Porque eu nada sei
Passo nas ruelas frias
Da cidade sem ouvir os sons
Ou olhar as casas vazias
Numa absorta e egocêntrica
Indiferença trocista.

Ai quem nos dera
A mensagem prateada
Nos lábios encantados
E os mundos prometidos
Nesse teu eterno olhar
Porque ao passar pela cidade
Aprendi a entender a cegueira
E o segredo que os prazeres
Encantados nos podem trazer
Em cada onda de solidão

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, agosto 31, 2011

















Como se solta a palavra
Num jardim de mil flores
Que se tinge todo o ano
Com pétalas de todas as cores

Ora amores e desamores

Encantam-se então as palavras
Na beleza do jardim
E unem-se para criar
Um poema sem ter fim

Ora cantam ora dançam

No jardim dos meus poemas
Há mil pétalas, mil cores
E ainda mais teoremas
Com pétalas de todas as cores.



Manuel F. C. Almeida

sábado, agosto 27, 2011















Quando te desejo, á distancia enorme

De um olhar

Não passo de uma duna, varrida pelo

Vento e pelo mar

Na angustiante degustação dos elementos



E se te toco com os dedos, numa ânsia

Desmedida e sem pensar

Derramo em ti tudo o que sou, num ardente

E único beijar

Na celebração da vida em todos os momentos



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, agosto 24, 2011

















Crescemos no sonho da unidade,

Uma unidade plena e uníssona

De nos fundirmos com “um outro”

Numa peça resistente ao tempo

E às intempéries do viver.

...Crescemos e não damos conta

Que afinal a unidade por si

É unicamente negação do “eu”.

Um subsumir da existência

Nas brumas gélidas da

Tradição em que crescemos.



A unidade sonhada é arma

De arremesso contra a felicidade,

Levamos meia vida nessa procura

E outra meia vida nessa miséria

E nunca nos permitimos ver

Com olhos de ver e de sentir

Como seria o mundo sem

Propriedades privadas ou

Amores jurados para sempre

Que nunca se cumprem



Amar é liberdade, uma liberdade

De o fazer em cada momento

Como se nunca tivéssemos amado.

E isso é unicamente ser livre

E deixar livre quem nos ama.



Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, agosto 12, 2011

















Onde

Estiverem nomes que me chamem

E o tempo parar em cada momento

É aí

Que me irás encontrar

A matar a sede de viver



Manuel F. C. Almeida

domingo, agosto 07, 2011




















Recordar é medir

Cada momento

Em que o desenho

Do teu corpo

Se ajustava ao meu,

Sentir na boca

O sabor presente

Do que és,

E ouvir a sinfonia

Que á noite trocávamos

Em pautas escritas a dois.


Manuel F. C. Almeida