quarta-feira, agosto 24, 2011

















Crescemos no sonho da unidade,

Uma unidade plena e uníssona

De nos fundirmos com “um outro”

Numa peça resistente ao tempo

E às intempéries do viver.

...Crescemos e não damos conta

Que afinal a unidade por si

É unicamente negação do “eu”.

Um subsumir da existência

Nas brumas gélidas da

Tradição em que crescemos.



A unidade sonhada é arma

De arremesso contra a felicidade,

Levamos meia vida nessa procura

E outra meia vida nessa miséria

E nunca nos permitimos ver

Com olhos de ver e de sentir

Como seria o mundo sem

Propriedades privadas ou

Amores jurados para sempre

Que nunca se cumprem



Amar é liberdade, uma liberdade

De o fazer em cada momento

Como se nunca tivéssemos amado.

E isso é unicamente ser livre

E deixar livre quem nos ama.



Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, agosto 12, 2011

















Onde

Estiverem nomes que me chamem

E o tempo parar em cada momento

É aí

Que me irás encontrar

A matar a sede de viver



Manuel F. C. Almeida

domingo, agosto 07, 2011




















Recordar é medir

Cada momento

Em que o desenho

Do teu corpo

Se ajustava ao meu,

Sentir na boca

O sabor presente

Do que és,

E ouvir a sinfonia

Que á noite trocávamos

Em pautas escritas a dois.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, julho 28, 2011


















Dos lábios soltaram-se

Rios de desejo

E dos beijos que trocámos

Em abraços ternos, delirantes

Ficou o sabor a sal

E a magia das madrugadas.



Manuel F. C. Almeida

sábado, julho 23, 2011


Prisioneiros da cegueira,


Nesta procura constante

Do “eu” que um dia perdemos

Não encontramos quem fomos

E muito menos quem somos

Porque já nada sabemos.



Por vezes somos só um

De outras vezes somos tantos

Que o encontro com nós mesmos

E como chuva de verão

Que apenas dá a ilusão

De mudar sem que mudemos.



Porque a mudança dói sempre

Como um parto natural

É arrancar um pedaço

Daquilo que o mundo nos deu

E que em nós sempre cresceu

Como diamante, como aço.



Verdades “inabaláveis”,

Tradições que são seculares,

Vincadas dentro do “eu”

Que destroem o que somos

E destroem quem já fomos

E que quase já morreu



Mas é tempo de quebrar

As barras das nossas celas

Libertar a “nossa história,

Destas amarras de tempo,

Deixa-la fluir no vento

Viver em pleno e em glória.



Manuel F. c. Almeida

segunda-feira, julho 18, 2011

















E colamos à pele
O manto do tédio
E todos os dias se repetem
Até á exaustão da vida.
Olhamos o espelho
E lá dentro encontramos
O que somos.

Uma imagem em
Construção nos olhos
Dos outros.

Só nos espelhos nos
Desnudamos
De nós.
Sem eles seriamos só
O que somos naquele
Lugar onde “somos”.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, julho 13, 2011














Ao despontar do dia
O corpo da noite implodiu.
Num último raio lunar
Um clamor à vida sorriu.
E foi entre as cores
Do arco-íris
Vincadas na alma,
Que a beleza do teu olhar
Me seduziu.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, julho 07, 2011
























Correm os rios para o mar
E no teu olhar em flor
Há uma luz que nos indica
O cais que o vento perdeu
No corpo resgatado ao tempo
Das lendas e glórias perdidas
Em lugares já sem memória
Que sopram no coração,
Em campos de rubras papoilas
Onde as palavras devolvem
A magia das manhãs
As flores se oferecem
À luxúria dos insectos
E o teu corpo se abre
Sem fronteiras ou limites
Ao prazer de ver os rios
Que correm para te abraçar.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, junho 30, 2011



















Que vento indomável me tomou o olhar
Que os meus olhos só vêm o que não viam?

Máscaras de uma normalidade lúcida
Num tempo em que “ser” se transmuta

E tudo se move, tudo evolui, tudo se altera
Na vida, no mundo que é um todo real

Só o pensar se mantém em cristal
Recusando assim o movimento

Ontem fui, hoje sou, amanhã não sei
Mas sei o caminho que estou a traçar

E na solidão do meu caminhar
Não há tempo a perder na vida

Resta-me pois enterrar o que fui
Abraçar o que sou e enfrentar o amanhã

Sem deuses ou deusas e sem sacrifícios
Que me tomem o corpo e a sanidade

É tempo de ir, tempo de mudar
Dizer adeus, cavalgar a saudade

Porque o caminho da memória é tortuoso
E recordar é só um perpetuar o passado.

Manuel F. C. Almeida

domingo, junho 26, 2011


















Tantos lábios, tantos sonhos,
Tantos corpos pra beijar
Tanta alegria que é vida
Tanta vida que é amar

E tudo em mim vai crescendo
Como uma onda no mar
Que quando é vida na areia
Não deixa de se espraiar

E se um dia tenho certo
Que tudo se vai acabar
E que a vida só se cumpre
No plural do verbo amar

Vou amar todos os dias
Sem fantasmas de saudade
Porque o amor só acontece
Quando amar é liberdade.


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 22, 2011















Queimo em mim os restos do que sou
Devagar teimosamente sem pressas

No espaço livre desenho canteiros
Com tulipas, cravos e amores imperfeitos

A terra alimenta-se das cinzas
E as flores descobrem-se como diamantes

Faço colares de flores vivas
Que me limito a unir, sem as colher

Dos lábios soltam-se pequenas
Gotas de vida e saltam rubis do olhar

E na escuridão do universo, algures
E em segredo há uma estrela a cantar

Manuel F. C. Almeida

sábado, junho 18, 2011



















Com que letras se deve cantar

A canção da vida e da melodia

Que leva consigo no tempo

A vida…dia após dia.

Com os segredos do sangue?

Com pétalas de alvorada?

Com sonhos roubados á terra

Fresca… depois de lavrada?



Mas cantem como cantarem

Cantem com todas as cores

Que o mundo das minhas canções

É um mundo de muitos amores.


Manuel F. C. Almeida.

segunda-feira, junho 13, 2011













Silencioso o impulso


Despe-se das amarras

Da paisagem,

Bebendo a vida no vento,

Num voluntarioso gesto

De invocação dos corpos

Adormecido sinto a tua

Mão percorrer-me os sentidos

E num ultimo fulgor

Ergo a vida e deleito-me

Com a candura dos teus

Olhos, que suavemente

Me devoram numa doce e

Antecipada luxúria.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 08, 2011















Nunca lamentes, nem chores

Não recordes nem prometas

Há sempre um mundo de amores

No coração dos poetas


Não chores os amigos caídos

No labor do dia a dia

Nem os amores vividos

Quando o amor te sorria


Porque o amor não é singular

Sendo fruto desta vida

Acontece sem avisar

Na pluralidade sentida


Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, junho 03, 2011

Num tempo sem tempo


Todos os dias se repetem

Mas chegaste sem perguntas

Nem respostas

E eu sentei-me no alto

De uma nuvem

E o prazer brilhou no teu olhar

Sem pedir nada em troca


E eu falei dos olhares perdidos

E dos sentidos por descobrir

E sem perguntas ou respostas

Ficamos quietos a olhar o horizonte


Num tempo sem tempo

Nem o horizonte amanhece


Só o presente é real

E só no presente nos descobrimos

Tudo é finito, tudo é presente

O amanhã é acidente.



Manuel F. C. Almeida

foto  http://olhares.aeiou.pt/luana%20bernardo

segunda-feira, maio 30, 2011




Elegia social



Nada pode já pintar
As cores do corpo em tédio
A indolência da vontade
Ou as simples palavras
Mudas que guardas
Dentro de ti.

Longe, nada pára o desejo
Ou o momento em que tudo
É belo e as pessoas se apresentam
Como aves do novo mundo
Entre plumagens de mil cores
E o cheiro a novidade.

Então porque não falas
Ou cantas os segredos
Da alma? Não há cobranças
A fazer e o preço a pagar
É tão baixo que não merece
Os juros do silêncio.

Não! Não queiras um teatro
De marionetas como palco
De vida, um presente indolente
Em que tudo se resume a
Uma plateia de aplausos
E um objecto decorativo.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, maio 25, 2011








Leonard Coehn
inspirou este poema
(Like a Bird on the wire)





Porque sou o que não quero
E o que quero não posso ser
Vivo sempre num desespero
Entre o ser e o não ser.

E o ser que na verdade
Está refém dentro de mim
Anseia pela liberdade
Com mirra, incenso, jasmim.

Mas só a minha vontade
Irá decidir o momento
Em que abraço a liberdade
E agarro uma asa de vento.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, maio 19, 2011



Eu vivo só, mas assustado
Pela multidão que me rodeia.
Se falo olham para o lado
Se me calo... sou só areia.
Por tudo vivo inanimado
Preso ao mundo que fechei
É lá que sou escutado
Foi lá que me criei.
Nas margens do ser e do não ser
No único local onde existi
Faço a vida acontecer
Sei que ainda não morri


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, maio 13, 2011



Molho os pés nas tuas águas
E rasgo as duvidas no tempo.
Planto crisântemos em vasos
Que florescem na tua voz

Com o olhar faço o teu molde
Que imprimo dentro de mim
E sopro a figura criada
Com a magia do vento

E nas flores que se desvelam
Do teu ventre feito noz
Saltam sementes de fogo
Que germinam entre nós.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, maio 09, 2011


Em 09/05/2004 escrevi este poema

Escondo-me num canto da noite
Dentro do meu pensar e sentir,
Tenho o sabor dos teus lábios
Presentes, sem que os conheça
E marcam-me a alma como agulhas
Que misturam o fogo com o fogo
A agua com a agua e os corpos
Separados pela linha do tempo.
Tenho o sabor da tua pele
Sonhada no silencio das noites
E a sinfonia dos dedos
No percorrer simples
De um corpo que se ergue
Ao ritmo de compassos binários
Naquela sinfonia que sonhamos
Tocar a dois, sem linhas de tempo
Ou realidades escondidas
Escondo-me num canto da noite
E na ternura antecipada de um beijo.

Manuel F. C. Almeida

 
foto: http://olhares.aeiou.pt/Papion