domingo, março 06, 2011





















Já se foi a inocência
Numa barca de espuma
Levada pelas correntes
Dos dias.
Teimamos em ser crianças
Mas as marcas no olhar
E as feridas da alma
Recordam-nos sempre
A nossa condição.
Já se foi a inocência
E os sonhos…
Guardo-os na palma da mão.


Manuel F. C. Almeida


foto: SaMY

quinta-feira, março 03, 2011





















Na neblina da manhã
Ergo a cabeça e olho
Para traz.

Foram bons os dias
E os anos.
Agora vestígios de alma
Vão caindo um a um.

Até a nudez dos sentidos
Se vinca no olhar.
E no deslumbramento
Que é existir.

Encontro-me, onde não estou.

Na neblina matinal
Recordo os olhares
As mãos, os lábios
E os cheiros
De tantas gentes.

Recusar o esquecimento é
Prova de vida que se basta.

Manuel F. C. Almeida


domingo, fevereiro 27, 2011




















Só a culpa inibe
O olhar da nudez
Na dança instintiva
Do desejo.
Os deuses que se ouvem
Em nós
E nos cobrem com a sua vergonha,
São os mesmos que rejubilam com
O festim da guerra santa.

Manuel F. C. Almeida


terça-feira, fevereiro 22, 2011














Cai-me o olhar, lentamente
No tempo que teimo em não deixar
Tocar-te a mão, suavemente
E recusar partir, sempre ficar

E não entendes (porque não sentes)
O sentido deste meu teimar
É nas memórias vivas e quentes
Que guardo o néctar do teu beijar

E mesmo quando passas altiva
Indiferente ao tempo e ao falar
Mantenho aqui, guardada e viva
A doce memória do nosso amar

Manuel F. C. Almeida

fotoCaroline Buranelli

sexta-feira, fevereiro 18, 2011


Homem me fiz,
Corpo e razão

Alimento o meu ser
De sonhos e vento

Sou escravo de mim
Sou escravo do tempo

Mas escravo que sabe
A sua condição

É sempre homem livre!

Manuel F.C. Almeida

sábado, fevereiro 12, 2011





















Sem pressas procuro
A constância
Nesta paixão feita
De sombras.
Linhas de tempo
Que se cruzam
Na memória viva
Do silêncio
Que me chega á noite
Quando cerro os olhos
E o sonho
Me ocupa a vida.
Difuso, o corpo
Que não conheço,
É um raio de luz
Quando adormeço.

Manuel F. C. Almeida


segunda-feira, fevereiro 07, 2011
















Na minha mortalha
Descanso.
Finalmente repouso
Dos dias distantes e frios
Do teu olhar,
Do vazio dos gestos
Por dizer,
E das palavras ditas
Por fazer.
Na minha mortalha
Já não caminho a tua alma
Nem aspiro a conhecer
O teu corpo.
Na minha mortalha
Revivo a minha vida,
Prestes a levantar-me
E a recusar a morte
No teu não querer.

Manuel F. C. Almeida


fotoSAGHER

quarta-feira, fevereiro 02, 2011





















Deixei que a bruma se encerrasse
Numa arquitectura encantada.
Toda a beleza se resguarda
Na eternidade do nada.
Perdida a palavra nos rios
De sal e fel, leitos de alma
Não traz o eco dos tempos
Nem com os ventos se acalma.


Manuel F. C. Almeida


foto Tuca

segunda-feira, janeiro 24, 2011





















Digo-te adeus, porque te digo
Que os silêncios são barreiras
Construídas na mente,
São vida fossilizada
Pela ausência e pelo tempo,
São horizontes num
Universo paralelo,
São olhares vazios
Sem objecto,
São palavras vivas
E não soletradas

Digo-te adeus, porque te digo
Que o amor é algo mais
Que o corpo em fogo,
É desejo de beber
O néctar de mil papoilas,
É procurar o universo
No outro olhar,
É sentir nas mãos
O aroma de mil frutos,
É ser desassossego
No ser.

Digo-te adeus, porque te digo
Que somos palavras por dizer
Que não estão apaixonadas.

Manuel F. C. Almeida



fotoMRVM





quarta-feira, janeiro 19, 2011
















E de repente com as mãos
Rasgaste a vontade
E esqueceste o sonho.
Esculpiste o coração
E colocaste-o numa caixinha
Escondida dos olhares do mundo.

Olhaste e recuperaste o passado
Mas sem coração não há magia
E tudo transparece um dia,
Como um vidro.
Então o que vês é o que queres,
O que escolheste.
E nunca o que o coração
Pintou com as cores
Da vontade.
Esse quadro será sempre
Só teu. Guardado num recanto
Da alma.

Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, janeiro 14, 2011





















É nestes dias em que chuva
Diz presente, que me cubro
Com o mistério da ausência
E procuro entender a vida.
Então olho para dentro de mim
E tacteio os amores do tempo
Na ânsia de reencontrar
O calor das almas esquecidas.
Porque em cada corpo possuído,
Em cada olhar que deixei cair
Teima em vibrar uma corda
Que me une a todos eles.

E sinto o mundo comprimido
No silêncio estéril do passado.

Manuel F. C. Almeida


domingo, janeiro 09, 2011
















Com garras de vida
Rasgo o pensamento
E dilacero-o em mil pedaços
Que teimo em lançar
Aos deuses.
Um poema,
Uma estrada,
Um caminho sem sentido
Uma pergunta de espanto
Que margens terá
O meu rio?

Manuel F. C. Almeida


foto: SAGHER

quarta-feira, janeiro 05, 2011















E a olhar o teu olhar eu não me via
No reflexo vivo dos teus olhos
E a seguir-te os passos eu não seguia
O estranho mundo dos teus sonhos

E assim desbravámos este caminho
Estranhos no ser, estranhos no estar
E na nudez dos corpos bordámos a linho
As letras do verbo que se diz amar

Mas os olhos e o verbo sempre revelam
A verdade que se teima em esconder
E os dias que passam sempre desvelam
Os segredos guardados dentro do ser.

Manuel F. C. Almeida

foto Alexandre Grand

sábado, janeiro 01, 2011















Tudo passa num lampejo,
Na tardia descoberta
Do que fomos.
Entendemos finalmente
Que já nada existe,
Para lá da memória
Dos corpos possuídos.

Manuel F.C. Almeida


segunda-feira, dezembro 27, 2010


















A visão do futuro
Massacrado contra
A vida
É a última esperança
Que resta
Nos dias sitiados
Do presente.

Manuel F. C. Almeida


foto:JET ...

terça-feira, dezembro 21, 2010
















Cortámos o segredo


para além dos espelhos


e descobrimos os lugares


proibidos na alma,


junto a um velho rio


esquecido.


Nas margens prenhes


de imutáveis paisagens


esquecidas


Só o eco do teu corpo


me acorda deste sonho.








Manuel F.C. Almeida





foto: luis miguel inês

quarta-feira, dezembro 15, 2010
















Caminhas pelo horizonte dos meus sonhos
Com o passo delicado de uma história
No mais reprimido mapa da memória
Esconde-se o teu corpo dos meus olhos

Caminhas devagar e sem o saber
Percorres as páginas da minha existência
Meus braços abraçam a tua ausência
Meus lábios cantam-te no meu viver

Prisioneiros somos neste universo
De estrelas que brilham como diamantes
De poemas escritos, jóias de amantes
Que descrevem a vida, verso ante verso.

Manuel F. C. Almeida


sábado, dezembro 11, 2010





















E consome-se o tempo
Com o tempo que nos consome
A alma.
Os sons, simples segundos
De passagem, são uma quimera,
Uma miragem;
Borboletas na paisagem.
E os olhos que encontram olhos
Para neles se perderem
Fixam a máscara do que foi
E nunca “é”
Porque o agora
Não se desvenda sem a soma
Do tempo que há-de vir.
Só o passado é existência.
Só o meu sonhar existir.


Manuel F.C. Almeida


segunda-feira, dezembro 06, 2010





















Sim, eu sei que me fascinam
As folhas perdidas no tempo
E as aves que voam sem rumo.
Sei também que os elementos
Me fascinam, tal como me
Fascinam as pessoas. No fundo
Tudo me deixa fascinado.
Da organização marcial dos
Formigueiros,
À existência de perguntas
Por fazer.
Sim eu sei que tudo me fascina
Especialmente a estranha
Diversidade das coisas
As folhas, as aves, as gotas de água
De todos os oceanos.
Mas o que mais me fascina é esta
Incessante procura de dar sentido
À vida humana,
Acaso o oceano procura
Explicar-se?
Ou uma folha de Outono
Se recorda de como foi a primavera?
Ou as aves explicam os motivos
Da sua aparente vivência caótica?
A vida é tão simples,
Como pudemos destrui-la?

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, dezembro 03, 2010















Sinto que o tempo se acaba
Aqui
Nesta alegórica existência
Sem sentido

Na procura do poema perdido
Em mim
Que cante a minha verdadeira
Face

Na margem em que a coragem era
Vida
E o coração uma arma apontada
À esperança

Mas é tempo de silenciar
Os sonhos
E deixar de pintar as palavras
Com o teu nome.

Manuel F.C. Almeida