
SUSSURRO
FOTO BY:Hugo Macedo
Desafiei o poema que bailava
Entre os meus dedos.
E as palavras que saltaram
Sussurraram-me teus segredos.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ



POUSO
FOTO BY:Fernando Bagnola
Nesta estranha acalmia dos dias, meditar um poema nas páginas de um livro qualquer, é como deixar crescer o silêncio dentro da alma sem que nada impeça o tempo de nos conduzir através do seu vector invisível. É nestes momentos que descubro a tua silhueta em contra mão e pouso o olhar na tua sombra.
Manuel F. C. Almeida

OLHAR
foto by:Marcos Sobral Nudes & Fashion
No fim da tarde, quando as cores se desvanecem e as aves se recolhem
Encontro enfim o teu canto, na linguagem contemplativa
De um olhar apaixonado. Mistério da existência. Corrida amarga
Contra o tempo. A teu lado o ópio entorpece-me os sentidos e a visão tolda-se ao leve toque do olhar.
Manuel F. C. Almeida

PORQUE AINDA HÁ HOMENS COM ESPINHA DORSAL
(Embora corram o risco de ser presos como o sindicalista).
ESPECTACULO:
CANÇÕES ANARQUISTAS
Não me pergunto onde vou
Os caminhos nunca acabam
Andorinhas de asa negra
Só vivem enquanto voam·
De polícia já estou farto
Civil ou republicana
De presidente de estado
Bem fardado ou à paisana·
Chapéu preto bem nos olhos
Residente em parte incerta
Trago bombinhas com mel
E os sentidos sempre alerta·
Da natureza nascemos
Vivemos com a razão
Vendo luas e não pago
Imposto de transacção.
Composição: Vitorino Salomé

Descoberta
foto by:DDiArte
Não mais esqueço aquela face branca que se colocou á minha frente de lábios entreabertos no convite claro ao beijo. Recordo ter misturado os meus lábios com os dela e o sabor a canela ter tomado os meus sentidos. Beijamo-nos longa e calmamente, saboreando cada gota de saliva e desenhando com as mãos o corpo do outro. Quando acabámos deixámos os olhos falarem. Naquele dia descobri que o prazer é algo mais que um momento fugaz.
Manuel F.C. Almeida

DESERDADOS
Crianças esqueléticas deambulam
Nos montes de gordura supérflua
Da cidade,
Longe,
Dos olhos da cidade.
Dos despojos privilegiados
Da cidade.
Escondidas da cidade,
Escondidas da obscenidade
Que empesta as modas
Ricas da cidade.
E a cidade adormece devagar
Ao ritmo sacrossanto das igrejas,
Dos bares de diversão,
Dos centros comerciais e
Das consciências de avestruz, que falam
A inevitabilidade da pobreza e da fome,
E justificam as esmolas
Na nossa hipócrita existência.
As crianças esqueléticas
Um dia vão voar e exigir
O seu quinhão de humanidade.
Deixarão de ser coitados
Submissos.
Sairão dos seus lugares
Miseráveis
E virão, rumo à cidade tomar,
Com os olhos ocos de sentimentos,
A vida que lhes roubaram.
Abandonarão a inocência
Que a cidade tanto aprecia
E como DESERDADOS
Virão cobrar a herança da vida
Que lhes foi negada.
Numa raiva sem forma,
Sem história, sem nada...
Manuel F.C. Almeida

I
Foto by:Vinicius Andre Rodrigues Parente
Nos gestos com que te desenho
Esconjuro a escuridão do abandono
E do luar em que te descubro
Erguem-se os desejos
Dos lábios em comunhão.
Manuel F. C. Almeida

JÁ!
FOTO BY:Fernando Figueiredo
Com licença! Com licença!
Tenho pressa em comprar;
O voar de uma gaivota,
Uma flor de encantar,
Um planeta de ar puro,
Um prado pra dormitar,
As areias de uma praia,
Um lugar pra descansar.
Tenho pressa! Tenho pressa!
De um mundo novo criar.
Manuel F.C. Almeida

ilusions
foto by:António Louro
Não tenho sonho maior
Nem ilusão que se compare
Que ver-te contra o luar,
E querer adivinhar-te
Envolta na bruma da noite
Para na noite te amar.
Manuel F.C. Almeida


Abrigo
Foto by:grENDel
Vou percorrer na madrugada
O caminho da bruma
E abrigar-me nos teus lábios
Até o sol raiar.
Manuel F. C. Almeida

saudade
foto by:TIAGOXAVIER
Foi no tempo
Perdido,
Em que estavas
Ausente
Que sem nunca te ver,
Sentia
Que eras sempre
Presente.
Manuel F. C. Almeida

SENSIVEL
FOTO BY:n...o
Teimo em procurar nos dias que passam a chama que um dia me iluminou a alma. Deambulo pelo vazio dos meus dias, convencido que o tempo tem sentido e justiça. Sou aquele que um dia deixou apagar o fogo e que fez dos dias um inferno de gelo. Não me transformei, nem me transmutei. Sou o mesmo que fui, aquele que nunca quis ser o que foi mas que luta por ser o que não é. Suprema contradição esta procura de mim, na fuga que um dia encetei de mim. Ausente, sou uma sombra do meu “eu”. Prisioneiro nesta estatua que criei, há muito que me hipotequei à inevitabilidade do real. Não procuro rios de águas sem cor ou jardins supostamente suspensos, não procuro deuses ou deusas.
Só aspiro à transparência das palavras, e já agora a um olhar desassombrado.
(POEMA em memória do HOMEM desconhecido, ou como se implode a existência)
Manuel F. C. Almeida


