quinta-feira, janeiro 04, 2007

Os cisnes

















Finalmente o autocarro chegou. Era o último passageiro, na última paragem. Olhei para o motorista, um tipo calvo que me recordava um tipo calvo que anos antes conhecera.
As luzes da cidade eram agressivas, e as putas deambulavam por ali. O motorista fez-me sinal para sair. Desci do autocarro onde fui o último passageiro. Um cisne aproximou-se e lançou-me um olhar fulminante. Não costumo falar com eles. E também desta vez não lhe falei. Não gosto de cisnes falantes. São chatos. Do círculo de putas uma se destacou e logo o cisne a insultou. Bati-lhe. Como já disse não gosto de cisnes falantes e ainda por cima moralistas. A puta agradeceu. Beijei-a nos olhos. Toda a gente gosto de beijos nos olhos. Ofereceu-me o seu corpo. Declinei a oferta. Ainda não sei porquê. Era honesta. Não me pediu filhos, nem passeatas, nem fez juras de amor. Queria apenas agradecer-me. Tinha olhos cor de romã. Era bonita, como são as pessoas honestas. Mas eu não queria mais nada que um braço para me afagar o diafragma. Ficou comigo, de mão dada. Passou um carro e outro e outro. E ela ali, parada a olhar para mim. Não trabalhou nessa noite. Uma desconhecida aproximou-se. Não trazia toga nem o livro das leis. Perguntou-me se desejava voar um pouco. Eu aceitei. Beijei a mulher que estava de mão dada comigo e arranquei as asas ao cisne. Transformou-se numa hárpia. Ajeitei as asas ao corpo e voei.
É, isto de voar requer sempre que se arranquem as asas dos cisnes. Vão ver como mudam.

Manuel F.C. Almeida

where




Tenho na voz um novelo
Feito de dias.
Calaram-se as palavras
Que voam.
Só o querer quebra
Os silêncios.
Uma gaivota plana
Não ar.
Há pedaços de mim
Em mil lugares,
E no bar os homens cantam
Ao sabor de Baco...


(cantam os homens)
" Tens contigo a maldição
Da dança macabra da morte.
Dá-nos o teu coração
E voltarás a ter sorte."
(fim)


Tenho na voz um novelo
Feito de imagens.
Umas chegam, outras partem,
Outras que se alimentam
Do tempo presente.
Mas todas são apenas
Miragens.
E tu estas ai?


Manuel F. c. Almeida

terça-feira, janeiro 02, 2007

tank you
















Tank you pela chuva que cai
Tank you pela brisa que corre
Tank you pela vida que vai
Tank you pelo sonho que morre

Tank you pelo sopro do ar
Tank you pela bela madrugada
Tank you pela beleza do mar
Tank you pela mulher amada

Tank you por tudo e por nada


Manuel F.C. Almeida

want



Há uma brisa que corre
Ao sabor dos dias.
Nos olhares que se cruzam
Só o tempo parece
Dar sentido à existência,
Que teima em não se encontrar.
O verme da aparência,
Perfura os sentidos.
Até o olhar se desvanece
E mortifica.
Tudo se resume
A ser,
A querer ser,
unicamente

humano.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, janeiro 01, 2007

HOJE MERECEM UM BOM POETA

















Nos jardins municipais
As flores também são flores.
Assim, na vida e no mais,
Que a vida é de estupores

Podemos todos ser nossos
E fluir como quem somos.
Quando a casa é só destroços
É que fruta é só de gomos.

FERNANDO PESSOA

and grow up





















O ano novo já chegou
E o ano velho já partiu
E quando este chorou
O novo então sorriu

Manuel F.C. Almeida

domingo, dezembro 31, 2006

REBORN





















O novo ano esta pra chegar
O velho está pra partir
Que o novo nos faça sonhar
E o velho nos faça sorrir.

Manuel F.C.Almeida

Mundos














Amar as palavras simples que escreves
Neste mundo louco, estranho e até frio
É algo de novo e um pouco sombrio
Na terra que em tempos teve almocreves

Gente que fala e sonha com o tempo
Palavras sem “ser” sem côr, emoção
Palavras gélidas, sem coração
Sinfonias criadas em contratempo

Árias que cantam só um momento
Poemas que vivem na palma da mão
Letras que gritam a solidão.
Promessas impressas que voam no tempo.

E assim somos estranhos, já conhecidos.
Gente que vive num mundo ideal,
Onde o “ acontece” pode ser tão fatal
Como podem ser miragens nossos sentidos.

Manuel F.C.Almeida

sábado, dezembro 30, 2006

tolos
















Uma capa fiz do canto
De baixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se fora por eles lavrada.
Deixa, canto, que a tomem,
Pois maior feito existe
Em andar nu

sexta-feira, dezembro 29, 2006

aqui estou



nada de entusiasmos
a foto nao é minha
















E eis me aqui todo nu,
Despido de mim
E do mundo.
Solitário,
Caminho entre campos de
Giestas e de estevas
De flores brancas e
Amarelas que
Se dão a cheirar.
E ouço o gemido
Da manhã,
No seu despertar.
E já nem tenho
Frio
Apenas uma leve
Sensação de arrepio
Me recorda que “sou”
E eis me aqui todo nu
Despido de mim
Já pronto
Para voltar a cantar

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, dezembro 28, 2006

esta noite


Deixem que vos conte um segredo. Esta noite matei o meu fantasma. Sim …. Estrangulei-o! Sempre a chatear, sempre a chatear. Apanhei-o distraído e fodi-o.
Estava a ouvir beatles, olhei-o de soslaio e ele lá estava. A vigiar-me. Silencioso. Já não o suportava. Num ápice agarrei-lhe o pescoço e partilhe a traqueia. Filho da puta, não me largava. Isto começou á 3 meses, durante anos convivemos em silencio mas agora estava chato. Foda-se já tava plos cabelos. Que merda esta de vida. Quando não são as porras da falta de guito, são estas merdas dos fantasmas. Há…., mas desta vez acabei com ele. Sempre aqui a ocupar-me a cabeça, e a foder-me os cornos. Até a tusa me afectou.
E depois esta merda de um gajo ter de ser “ socialmente correcto” cansa.
- Tem de ser bonzinho, dizem uns- enquanto outros nos fodem vida a torto e a direito, e ainda se ficam a rir.
-Tem de ser pessoa honesta e séria; fodam-se todos…., sim…. Fodam-se todos! Tou farto desta merda de ser bem comportado, de cumprir com esta merda toda, que ganho eu? Sim que ganho eu? Os filhos da puta do poder e os seus lacaios banqueteiam-se com tudo. Nada fica pra mim e pró resto da maralha. Caralho de vida esta pá! foda-se!
Sim… um gajo escreve umas poesias todas delicodoces, é honesto no trato com os outros, é honesto consigo mesmo e depois?
Depois fode-se! Sim fode-se! E ainda ficam fantasmas de merda a azucrinar a cachimónia. Mas ontem acabei-lhe com o cagar. Até dormi melhor.
De manha olhei pró local onde o deixei. Continuava lá. Bem morto claro, já não chateia o filho da puta.
Pensei que ainda me olhava, o cabrão, mas não já não pia. Ta fodido de vez e não há cá mais merdas de conselhos bonitinhos que tou farto disso.
Andaram-me amigos a dizer:
-não vale a pena vinganças, temos de ser boas pessoas, temos de saber esquecer e perdoar, ser pessoas civilizadas. Sabem que vos digo? Estão-se a enganar. Que se foda isso tudo das boas maneiras. Eu quero é ficar bem. Matei-o e pronto. Sim fui eu. Fui eu que fodi isto tudo. Eu sou um gajo radical. Se fosse terrorista era o caralho, bombas pra cima e pra baixo, foder tudo e todos. Comigo não há meios-termos. Nada de negociações, isso é para o social, isso é o medo da lei. É o medo de ser preso.Eu quero que a lei se foda. Se um dia puder arrebento-me com explosivos e fodo uma data de gajos. Gajada do poder e o putedo que tiver com eles. Que esses gajos atrem sempre muita gaja. Não sei que lhes passa pela cabeça. É o dinheiro claro. Aquele italiano o albinoni ou o caralho é que a sabe bem. zurze-as a todas de putas pra cima. (Educadamente que o cabrão gosta é de vender). Mas sabem eu acho que isto ta mesmo tudo fodido. Não há ponta por onde se pegue.

Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, dezembro 27, 2006

you and them















Eles alimentam-se
Do teu medo
Alimentam-se
Do teu ódio
Alimentam-se da
Tua ignorância
Alimentam-se
Do teu esforço
Alimentam-se
De tudo o que
És, ou
Desejas ser.
E tu mais não
Desejas
Que ser um
Deles.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, dezembro 26, 2006















Quero um mundo sem prisões
Sem vencedores ou vencidos
Juntos somos milhões
Caminhemos todos unidos

Quero um mundo sem tiranos
Um mundo de liberdade
Sem bombas ou balas nos canos
Um planeta de igualdade

Quero um mundo sem fronteiras,
Sem propriedade privada,
Que não tenha tantas bandeiras,
Nem gente amordaçada.

Quero um mundo de esperança
Feito de amor e paixão
Visto por uma criança
Pintado pela sua mão

Mnuel F.C. Almeida

segunda-feira, dezembro 25, 2006

o rei morreu



this is the man's world

domingo, dezembro 24, 2006

natal



















Hoje, um pouco por todo o lado, o ocidente cristão mergulha na sua mais importante efeméride religiosa. O nascimento do Messias.
Nesta altura aparentemente, as pessoas são mais sólidarias. Até os que não acreditam no fenómeno religioso são contagiados em parte pelo espírito natalício. No entanto não creio que este espírito seja espontâneo. Esta solidariedade festiva, em meu entender, esconde, na maior parte das vezes, apenas e só muita hipocrisia. Na verdade entendo que a solidariedade é uma obrigação de todos nós e em todos os dias do ano. A educação para uma sociedade solidária deveria fazer parte dos currículos escolares. Mas a verdade é que não faz.
Esta época nao passa pois de mais uma data em que mergulhamos no consumismo de coisas supérfulas apenas e só para alimentarmos o ego dos nossos filhos e o nosso estatuto social. E enquanto nós assim fazemos, pelo planeta existem milhões de irmãos nossos que morrem de fome e de doenças passíveis de serem tratadas, que morrem vítimas de minas e de armas construídas nas fábricas do ocidente. Era nossa dever e obrigação, pressionar os nossos dirigentes a mudar de politicas, era nosso dever ajudar. Mas que nos interessa se em cada 3 segundos morre uma criança de fome? Nós não temos culpa pois não? Não somo culpados de nada, não somos nós que governamos, não somos donos das fábricas de armamento, nem somos nós que deitamos fora toneladas de alimentos que deixamos estraga. Não somos culpados e assim ficamos bem com a nossa consciência. Ficamos em paz com o nosso Deus.
Mas quem elege os governos? Quem se sente bem com o salário recebido das fábricas de morte, quem compra acções dessas empresas e aufere dai bom rendimento?
Seria interessante, que o natal fosse um dia de partilha, onde todo o planeta tivesse o suficiente para viver. Que partilhássemos tudo, que os nossos filhos dessem e trocassem brinquedos com quem não tem, que em suma se fizesse de todos os dias um dia de natal, já que todos os dias nascem crianças e em cada nascimento está a salvação da espécie, porque em cada uma que nasce há um natal que sorri nos seus olhos. E que todos tivessem as mesmas oportunidades na vida. Só assim seria cumprido o espírito natalício e se faria um mundo mais livre, mais justo e mais solidário.

soneto por vinicuis de morais





















De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Que vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

( Vinícius de Moraes

sábado, dezembro 23, 2006






















Pintei a alma de negro,
Com tinta sem qualidade
Espetei nela mais um prego
Uma marca da saudade.

E em cada marca que faço
Fica um ponto a lembrar
Que naquele lugar há um laço
Bom ou mau pra recordar

E em cada ponto marcado
Uma nova cor vai surgir
Que me leva a outro lado
Pra novamente sorrir.

Manuel F. C. Almeida

o amanhã a chegar.




















No meio da multidão
Acabamos por estar sós.
Que estranho destino
Temos nós?

Na aurora dos dias
Que passam, caminhamos
P´las escuras vielas
Da vida
Tacteamos o tempo
Na ânsia da paz
Perdida.
E cada sonho que sonhamos,
É esperança e coragem a ser
Vivida.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

prisões



Gélida
A face dos deuses
Traz-me à lembrança
Todos os medos.
Criei os meus carcereiros
E agora clamo pela
Liberdade?

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Fenix


















Hoje faz anos
Que o que o poeta nasceu.
Partiu á procura
Do mundo.
Olhou o teu
Rosto
E morreu.
e voltou a viver
noutro rosto
noutro corpo
onde renasceu.