domingo, dezembro 25, 2011
















Por todo o lado em Portugal
Celebra-se o natal.
Numa estranha unanimidade
Pobres e ricos, são agora como irmãos.
Nos concelhos de todo o país
É tempo de festividades.
As famílias, unem-se, uma vez por ano
Em redor de uma mesa.
Os mais velhos desejosos de sossego,
Os do meio desejosos de sossego
Os mais novos com um sorriso na face
Antecipando gulosamente os presentes da praxe


que de imediato irão mostrar aos meninos sem natal.
É assim o natal, um dia em que todos abdicam
Da sua felicidade em prol da infelicidade coletiva.
Esta época é tão importante em Portugal que,
Todos os portugueses se sentem imbuídos do seu espirito.
Comunistas, socialista, sociais-democratas e outros que tais
Todos celebram o seu natal em paz e harmonia.
São as decorações das ruas que trazem mais cor e brilho
São os presépios de agradecimento ao senhor
São cânticos ao Deus menino que nas palhas
Foi parido.
É tão bonito…o natal
Nas ruas os pobrezinhos são presenteados com
O lavar da consciência dos outros.
Chama-se caridade, há quem lhe chame
Solidariedade, mas vai dar ao mesmo
Dar um pouco daquilo a que todos têm direito
Mas que todos os dias lhes é negado.
E é isto e muito mais o natal
Em Portugal.
E no mundo ocidental.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 22, 2011




















Teu nome, guardei-o a sete chaves
Numa caixa dourada nas folhas de
Um velho caderno, que cheire a papel
Quando o voltar a ler.
Nada mais que memórias, confronto
E um rasto de inutilidade nunca
Resolvida.
Sem palavras ou sem olhares
Transformámos a amizade em algo
Externo à nossa vivencia
E nem do toque dos lábios
Ou das letras do nome nos recordamos.

Quem não sabe resolver o passado
Raramente resolve o futuro.
Toda a existência passa então a ser
Uma presença no deserto
Um grito reprimido no peito
Um sentir de não sentir
Um arrastar miserável da existência
Por caminhos sempre incógnitos.

O teu nome, guardei-o a sete chaves
Numa caixa dourada nas folhas de
Um velho papel que o tempo vai
Consumir.
Porque o tempo tudo limpa, e tudo lava
Só não pode tratar os muros
Erguidos pela memória.

Manuel F. C. Almeida



foto: Ana Alba Luna

domingo, dezembro 18, 2011

















Presente nas palavras,
Escondido nos conceitos
O poema resolve-se
No abrir dos lábios em chama
E nos olhares que se
Ausentam
Dos dias e das noites
De paixão, como o anjo
Que reproduz a dualidade
Divina e a isenta de culpa.

Manuel F. C. Almeida

foto : Ana Alba Luna.

quinta-feira, dezembro 15, 2011



















Perdi o olhar
Num local qualquer
Onde também
Ficaram as palavras
E os sonhos inocentes
De felicidade.

Tacteio o horizonte
Com o pouco que me ficou
E questiono-me sobre
O que sou.
Dão-me abraços, beijos
E flores
Muitas flores
Decoradas com estrelas
E lágrimas de cristal.

Mas as flores desfazem-se
No tempo e as lágrimas
Corroem-me os dias.

Tenho mil olhares
Sobre os meus ombros
E o enorme desejo
De explodir
Numa orgia de vida,
Na ultima prova de que vivi.

Manuel F. C. Almeida

domingo, dezembro 11, 2011





Amor









Costumava escrever-te poemas.
Poemas em que derramava
O meu sentir, a doçura que
Escondo do mundo e que me
Trespassa o olhar quando te vejo.
Eram poemas de amor, poemas tolos
Como só os poemas de amor o sabem ser.

Costumava cantar o teu corpo
Como se de uma aurora falasse
E espraiava nas palavras o som
Do meu coração.
Eram poemas ternos, de uma ternura
Minha, criada e crescida dentro de mim.

E apaixonei-me pelas palavras
Que te criaram.
Eram minhas, nunca foram tuas.
E como todos nós, apaixonei-me
Pela minha ideia do outro.
Porque o outro vive, tal como todos nós,
Dentro de si e das suas construções
Na liberdade de ser quem é Humano


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 08, 2011






















Quando amar se resolve
Na liberdade de amar
Outra dimensão nos envolve
No reencontro do olhar
Um olhar da liberdade
Que tantas vezes nomeamos
Um olhar feito vontade
Um sentir de quem amamos
E só assim se pode amar
Com toda a essência de ser
Na liberdade de olhar
Quem em liberdade nos quer
E nesse querer sem medida
Nesse amar para lá de ter
Reside o segredo da vida
Sentir que amar é viver.

Manuel F. C. Almeida

domingo, dezembro 04, 2011




















Há na espera de ti uma magia
Doce e suave
Há a sombra ao cair da tarde,
Um beijo contido no pele,
Um olhar desassombrado

Há na espera de ti um coração
Encantado

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, dezembro 01, 2011

















Há viagens dentro de nós
Silenciadas pelo mundano.
Viagens ao que somos,
Viagens ao que tememos,
Viagens escondidas dos outros.
Coisas que só nós sabemos que existem.
Segredos inconfessáveis,
Porque em cada um há um mundo
Que deixámos para trás
Um mundo de escolhas
Inutilizadas
Mas que continuamente
Nos interrogam.
Há viagens dentro de nós
Que nunca irão acontecer
Porque é tarde
E escolher é isto mesmo
Sentir as dores das escolhas.




Manuel F. C. Almeida

domingo, novembro 27, 2011



















Meu país
Adiado
Minha casa
Ancorada
Minha bandeira
Escondida
Minha ferida
Infectada
Meu corpo
Inanimado
Minha verdade
Perdida
Minha voz
Amordaçada
Minha vida
Adormecida
Minha morte
Anunciada
Minha esperança
Esquecida.


Na tela da minha mortalha
Só o planeta é vida.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, novembro 23, 2011



















Sente-se a confusão dos tempos
Nas folhas soltas de um Outono
Igual a tantos outros.
Os corações soltam-se na angústia
Prenhe de bruma.
A poesia é isto mesmo, um escrever
Nas folhas o que está escrito
Nos dias.
Algures o encanto das palavras
Faz sorrir um coração
E o sonho impossível do poema
Cria orvalho no olhar.
A mão que se estende ou o sorriso
Que nasce ao passar dos dias e dos tempos
Fica muda, sem canções.
O vento brinca com as andorinhas
E o clamor da terra deixa-nos sempre
Assim…
No canto dos poemas vive-se sempre
As angustias da alma.

Manuel F. C. Almeida

domingo, novembro 20, 2011


















O olhar cerrado grita
O silêncio da loucura
Que se mascara em sorriso.
Nada fica
Tudo parte.
E os pássaros que voam ao sul
Esquecem o céu
E a cor dos loendros.
E o silêncio permanece
Um mistério do olhar cerrado
E de cada vez
Que os olhos se entreabrirem
É a visão da loucura e
O medo do homem que acorda,

Que vão
Encontrar.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, novembro 17, 2011















E só o sono me encontra
No ventre secreto
De onde retiro
O sonho que me
Anima os dias.

Manuel F. C. Almeida








domingo, novembro 13, 2011
























Já não te chega o dinheiro
Pró teu filho alimentar
Trazes a raiva contida
No coração a sangrar



Vives a vida que querem
Não te deixam levantar
O desespero que sentes
Vai um dia rebentar



Teu mundo é uma tristeza
Que parece não ter para par
Só o olhar do teu filho
Te dá razão pra lutar

Levanta a cabeça e agarra
Tens o futuro a mudar
Nunca te entregues sem luta
A vida faz-se a lutar

Às promessas que te fazem
Não as queiras tu tomar
O teu filho merece
Que venças a ondas do mar.




(a partir de um tema de Zeca Afonso: menina dos olhos tristes, aproveitando a musica)






Manuel F.C. Almeida

terça-feira, novembro 08, 2011






















Já nem sei se poderei
Iluminar estas sombras
Que dentro do meu pensar
Se condensam em nuvens
De cinzas.
Já nem posso reaver
O canto das águas
Nas memórias que
Guardam as chaves
Do tempo.
Do nosso tempo.
Daquele tempo em que
Os olhares sorriam e se
Perdiam nas cascatas
Dos corpos em êxtase.
Já nem reconheço os
Cheiros, ou os recantos
Dos nossos segredos
Das nossas cumplicidades.
Ficou de tudo uma brisa suave
Uma brisa de mar
Que vai e vem ao sabor
Das marés, desencontradas.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, novembro 03, 2011
















Por vezes há noite, antes dos braços do sonho
Me tomarem, no seu regaço, sinto o desejo de
Pensar que o mundo é linear. Que há gente
Boa e gente má, que ao branco se opõe o negro
Que existe algures um equilíbrio racional.
É nas horas em que me descubro só, cada vez
Mais só, um eclipse humano tomou conta de mim.
Se existo ou não, jamais saberei, porque pensar
Nada prova, para além do vazio do escuro e
Da ausência. Acompanha-me nestas viagens
A incerteza dos sentidos, uma incerteza pulsante
Viva, presente. E quando os murmúrios do silencio
Se descobrem, abandono-me no sonho de que um
Dia alguém surgirá do nada para me estender a mão,
Me afagar os cabelos e me segredar doce e ternamente
Amo-te.
Mas as manhãs trazem sempre um novo dia
E o corrupio sem sentido de me encontrar
Novamente só….no meio da multidão.

Manuel F. C. Almeida

sábado, outubro 29, 2011



















Eu não escrevo poemas para as pessoas.
Nem me importa o que pensam.
Os meus poemas são sinfonias
Que se escondem em mim, para lá dos sons
E da simples existência.
Neles amo, neles odeio
Neles prometo o que não posso
Neles sonho, neles me traio
E neles construo o meu mundo
Longe dos olhares dos outros.

Na minha alma os poemas
Espelham a solidão.





Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 23, 2011




















Um novo dia se segue
Ao dia que já passou
E o sonho que se persegue
É o que nunca se sonhou

E vêm bruxos e bruxas
Esquisitos animais
Sedutoras e alvas coxas
Corpos em mil bacanais.

E despedaçam-se as almas
Em ritos sabotadores
Deflagram-se os olhares
Em bocas de mil sabores

E tudo é como o vinho
Bebido com ansiedade
Em cada corpo acabado
Esconde-se uma verdade

E no dia que se segue
Ao dia que já passou
O sonho não se persegue
Porque o sonho terminou.


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, outubro 19, 2011

















Recolho nas mãos
Uma gota de memórias
Vertida do olhar.
Reencontro nela
A alma que um dia esqueci
Perdida entre as faces
E corpos em que vivi
E na vã tentativa de me
Resgatar, deixo o sol
Secar as memórias
E guardo nas mãos
O sal que dei á vida.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, outubro 13, 2011

















Uma aurora que desponta
Um barco a navegar
Uma libelinha que pousa
Um grilo no seu cantar
Uma mulher que acena
Com um sorriso no ar
Uma canção já esquecida
Um poema a recordar
Uma aventura que é vida
Uma só vida para amar.

Há um abraço do tempo à
vida, no seu caminhar.


Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 09, 2011
















Correm soltos os rios,

Apertados entre fronteiras,

Nas noites de lua cheia, só os peixes

Brilham ao luar.

Sentado, o olhar perde-se

Nas margems da vida

E as canções brotam

Das fontes onde só as almas

Saciam a sede.



Manuel F. C. Almeida

domingo, outubro 02, 2011






















Amaro no teu ventre
Como o silêncio se faz noite
Cerro os olhos e os sentidos
Numa caixa de magia
Escondida do olhar e das palavras
E em ti me espraio
E me encontro só, oco, vazio

E no fim, não passo de um
Clandestino passageiro
De asas abertas ao vento
E sonhos adormecidos.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, setembro 23, 2011






















Resgato todo o meu ser


Na solidão da minh’alma,


E no adormecer do olhar


Há um ritual renovado


De quem teima em sonhar


Com o espaço percorrido


Com asas.





Manuel F. C. Almeida

sábado, setembro 17, 2011





















E há a candura no olhar


E uma ausência no agir


Um silêncio a gritar


Uma verdade a fugir


Há um gesto, um canto, uma flor


Uma ave, solitária


Há pedaços soltos de amor


Um poema, uma ária


Há uma vida que adormece


Na paisagem dos meus sonhos


Uma clareira que floresce


No vazio dos meus olhos





Tenho a alma corrompida


Pela traição feita á vida.





Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, setembro 12, 2011
















Mata-se a vida
com a posse,
A liberdade
com a censura,
O amor com
a obrigação
e a existência
com a moral.

Mata-se o ser
Com a culpa de Viver.


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, setembro 06, 2011


















Ai quem nos dera
As palavras mudas
Os lábios descarnados
E os mundos escondidos
Do olhar.
Porque eu nada sei
Passo nas ruelas frias
Da cidade sem ouvir os sons
Ou olhar as casas vazias
Numa absorta e egocêntrica
Indiferença trocista.

Ai quem nos dera
A mensagem prateada
Nos lábios encantados
E os mundos prometidos
Nesse teu eterno olhar
Porque ao passar pela cidade
Aprendi a entender a cegueira
E o segredo que os prazeres
Encantados nos podem trazer
Em cada onda de solidão

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, agosto 31, 2011

















Como se solta a palavra
Num jardim de mil flores
Que se tinge todo o ano
Com pétalas de todas as cores

Ora amores e desamores

Encantam-se então as palavras
Na beleza do jardim
E unem-se para criar
Um poema sem ter fim

Ora cantam ora dançam

No jardim dos meus poemas
Há mil pétalas, mil cores
E ainda mais teoremas
Com pétalas de todas as cores.



Manuel F. C. Almeida

sábado, agosto 27, 2011















Quando te desejo, á distancia enorme

De um olhar

Não passo de uma duna, varrida pelo

Vento e pelo mar

Na angustiante degustação dos elementos



E se te toco com os dedos, numa ânsia

Desmedida e sem pensar

Derramo em ti tudo o que sou, num ardente

E único beijar

Na celebração da vida em todos os momentos



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, agosto 24, 2011

















Crescemos no sonho da unidade,

Uma unidade plena e uníssona

De nos fundirmos com “um outro”

Numa peça resistente ao tempo

E às intempéries do viver.

...Crescemos e não damos conta

Que afinal a unidade por si

É unicamente negação do “eu”.

Um subsumir da existência

Nas brumas gélidas da

Tradição em que crescemos.



A unidade sonhada é arma

De arremesso contra a felicidade,

Levamos meia vida nessa procura

E outra meia vida nessa miséria

E nunca nos permitimos ver

Com olhos de ver e de sentir

Como seria o mundo sem

Propriedades privadas ou

Amores jurados para sempre

Que nunca se cumprem



Amar é liberdade, uma liberdade

De o fazer em cada momento

Como se nunca tivéssemos amado.

E isso é unicamente ser livre

E deixar livre quem nos ama.



Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, agosto 12, 2011

















Onde

Estiverem nomes que me chamem

E o tempo parar em cada momento

É aí

Que me irás encontrar

A matar a sede de viver



Manuel F. C. Almeida

domingo, agosto 07, 2011




















Recordar é medir

Cada momento

Em que o desenho

Do teu corpo

Se ajustava ao meu,

Sentir na boca

O sabor presente

Do que és,

E ouvir a sinfonia

Que á noite trocávamos

Em pautas escritas a dois.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, julho 28, 2011


















Dos lábios soltaram-se

Rios de desejo

E dos beijos que trocámos

Em abraços ternos, delirantes

Ficou o sabor a sal

E a magia das madrugadas.



Manuel F. C. Almeida

sábado, julho 23, 2011


Prisioneiros da cegueira,


Nesta procura constante

Do “eu” que um dia perdemos

Não encontramos quem fomos

E muito menos quem somos

Porque já nada sabemos.



Por vezes somos só um

De outras vezes somos tantos

Que o encontro com nós mesmos

E como chuva de verão

Que apenas dá a ilusão

De mudar sem que mudemos.



Porque a mudança dói sempre

Como um parto natural

É arrancar um pedaço

Daquilo que o mundo nos deu

E que em nós sempre cresceu

Como diamante, como aço.



Verdades “inabaláveis”,

Tradições que são seculares,

Vincadas dentro do “eu”

Que destroem o que somos

E destroem quem já fomos

E que quase já morreu



Mas é tempo de quebrar

As barras das nossas celas

Libertar a “nossa história,

Destas amarras de tempo,

Deixa-la fluir no vento

Viver em pleno e em glória.



Manuel F. c. Almeida

segunda-feira, julho 18, 2011

















E colamos à pele
O manto do tédio
E todos os dias se repetem
Até á exaustão da vida.
Olhamos o espelho
E lá dentro encontramos
O que somos.

Uma imagem em
Construção nos olhos
Dos outros.

Só nos espelhos nos
Desnudamos
De nós.
Sem eles seriamos só
O que somos naquele
Lugar onde “somos”.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, julho 13, 2011














Ao despontar do dia
O corpo da noite implodiu.
Num último raio lunar
Um clamor à vida sorriu.
E foi entre as cores
Do arco-íris
Vincadas na alma,
Que a beleza do teu olhar
Me seduziu.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, julho 07, 2011
























Correm os rios para o mar
E no teu olhar em flor
Há uma luz que nos indica
O cais que o vento perdeu
No corpo resgatado ao tempo
Das lendas e glórias perdidas
Em lugares já sem memória
Que sopram no coração,
Em campos de rubras papoilas
Onde as palavras devolvem
A magia das manhãs
As flores se oferecem
À luxúria dos insectos
E o teu corpo se abre
Sem fronteiras ou limites
Ao prazer de ver os rios
Que correm para te abraçar.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, junho 30, 2011



















Que vento indomável me tomou o olhar
Que os meus olhos só vêm o que não viam?

Máscaras de uma normalidade lúcida
Num tempo em que “ser” se transmuta

E tudo se move, tudo evolui, tudo se altera
Na vida, no mundo que é um todo real

Só o pensar se mantém em cristal
Recusando assim o movimento

Ontem fui, hoje sou, amanhã não sei
Mas sei o caminho que estou a traçar

E na solidão do meu caminhar
Não há tempo a perder na vida

Resta-me pois enterrar o que fui
Abraçar o que sou e enfrentar o amanhã

Sem deuses ou deusas e sem sacrifícios
Que me tomem o corpo e a sanidade

É tempo de ir, tempo de mudar
Dizer adeus, cavalgar a saudade

Porque o caminho da memória é tortuoso
E recordar é só um perpetuar o passado.

Manuel F. C. Almeida

domingo, junho 26, 2011


















Tantos lábios, tantos sonhos,
Tantos corpos pra beijar
Tanta alegria que é vida
Tanta vida que é amar

E tudo em mim vai crescendo
Como uma onda no mar
Que quando é vida na areia
Não deixa de se espraiar

E se um dia tenho certo
Que tudo se vai acabar
E que a vida só se cumpre
No plural do verbo amar

Vou amar todos os dias
Sem fantasmas de saudade
Porque o amor só acontece
Quando amar é liberdade.


Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 22, 2011















Queimo em mim os restos do que sou
Devagar teimosamente sem pressas

No espaço livre desenho canteiros
Com tulipas, cravos e amores imperfeitos

A terra alimenta-se das cinzas
E as flores descobrem-se como diamantes

Faço colares de flores vivas
Que me limito a unir, sem as colher

Dos lábios soltam-se pequenas
Gotas de vida e saltam rubis do olhar

E na escuridão do universo, algures
E em segredo há uma estrela a cantar

Manuel F. C. Almeida

sábado, junho 18, 2011



















Com que letras se deve cantar

A canção da vida e da melodia

Que leva consigo no tempo

A vida…dia após dia.

Com os segredos do sangue?

Com pétalas de alvorada?

Com sonhos roubados á terra

Fresca… depois de lavrada?



Mas cantem como cantarem

Cantem com todas as cores

Que o mundo das minhas canções

É um mundo de muitos amores.


Manuel F. C. Almeida.

segunda-feira, junho 13, 2011













Silencioso o impulso


Despe-se das amarras

Da paisagem,

Bebendo a vida no vento,

Num voluntarioso gesto

De invocação dos corpos

Adormecido sinto a tua

Mão percorrer-me os sentidos

E num ultimo fulgor

Ergo a vida e deleito-me

Com a candura dos teus

Olhos, que suavemente

Me devoram numa doce e

Antecipada luxúria.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 08, 2011















Nunca lamentes, nem chores

Não recordes nem prometas

Há sempre um mundo de amores

No coração dos poetas


Não chores os amigos caídos

No labor do dia a dia

Nem os amores vividos

Quando o amor te sorria


Porque o amor não é singular

Sendo fruto desta vida

Acontece sem avisar

Na pluralidade sentida


Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, junho 03, 2011

Num tempo sem tempo


Todos os dias se repetem

Mas chegaste sem perguntas

Nem respostas

E eu sentei-me no alto

De uma nuvem

E o prazer brilhou no teu olhar

Sem pedir nada em troca


E eu falei dos olhares perdidos

E dos sentidos por descobrir

E sem perguntas ou respostas

Ficamos quietos a olhar o horizonte


Num tempo sem tempo

Nem o horizonte amanhece


Só o presente é real

E só no presente nos descobrimos

Tudo é finito, tudo é presente

O amanhã é acidente.



Manuel F. C. Almeida

foto  http://olhares.aeiou.pt/luana%20bernardo

segunda-feira, maio 30, 2011




Elegia social



Nada pode já pintar
As cores do corpo em tédio
A indolência da vontade
Ou as simples palavras
Mudas que guardas
Dentro de ti.

Longe, nada pára o desejo
Ou o momento em que tudo
É belo e as pessoas se apresentam
Como aves do novo mundo
Entre plumagens de mil cores
E o cheiro a novidade.

Então porque não falas
Ou cantas os segredos
Da alma? Não há cobranças
A fazer e o preço a pagar
É tão baixo que não merece
Os juros do silêncio.

Não! Não queiras um teatro
De marionetas como palco
De vida, um presente indolente
Em que tudo se resume a
Uma plateia de aplausos
E um objecto decorativo.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, maio 25, 2011








Leonard Coehn
inspirou este poema
(Like a Bird on the wire)





Porque sou o que não quero
E o que quero não posso ser
Vivo sempre num desespero
Entre o ser e o não ser.

E o ser que na verdade
Está refém dentro de mim
Anseia pela liberdade
Com mirra, incenso, jasmim.

Mas só a minha vontade
Irá decidir o momento
Em que abraço a liberdade
E agarro uma asa de vento.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, maio 19, 2011



Eu vivo só, mas assustado
Pela multidão que me rodeia.
Se falo olham para o lado
Se me calo... sou só areia.
Por tudo vivo inanimado
Preso ao mundo que fechei
É lá que sou escutado
Foi lá que me criei.
Nas margens do ser e do não ser
No único local onde existi
Faço a vida acontecer
Sei que ainda não morri


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, maio 13, 2011



Molho os pés nas tuas águas
E rasgo as duvidas no tempo.
Planto crisântemos em vasos
Que florescem na tua voz

Com o olhar faço o teu molde
Que imprimo dentro de mim
E sopro a figura criada
Com a magia do vento

E nas flores que se desvelam
Do teu ventre feito noz
Saltam sementes de fogo
Que germinam entre nós.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, maio 09, 2011


Em 09/05/2004 escrevi este poema

Escondo-me num canto da noite
Dentro do meu pensar e sentir,
Tenho o sabor dos teus lábios
Presentes, sem que os conheça
E marcam-me a alma como agulhas
Que misturam o fogo com o fogo
A agua com a agua e os corpos
Separados pela linha do tempo.
Tenho o sabor da tua pele
Sonhada no silencio das noites
E a sinfonia dos dedos
No percorrer simples
De um corpo que se ergue
Ao ritmo de compassos binários
Naquela sinfonia que sonhamos
Tocar a dois, sem linhas de tempo
Ou realidades escondidas
Escondo-me num canto da noite
E na ternura antecipada de um beijo.

Manuel F. C. Almeida

 
foto: http://olhares.aeiou.pt/Papion


sexta-feira, maio 06, 2011





















Solta o silêncio
Contido
No ruidoso silêncio
De ti.
Que o silêncio que te
Habita
É o silêncio
De mim.
Abraçamos o silêncio
Que se espraia
Entre nós
Como se não houvesse
Vida
Na voz
Pouco a pouco
Devagar
Mas como bicho de traça
Vai-se o amor no olhar
E o silêncio
Já não passa.
E mesmo quando
Em silêncio
Teimamos em manter
Este fio
Burla-mos o que já
Foi amor
E que é hoje apenas
Cio.



Manuel F. C. Almeida

foto http://olhares.aeiou.pt/rodrigomolina

domingo, maio 01, 2011

Agarro o sol, que se me dá

Solto o espírito no vento
E o olhar nas ondas,
E nunca me perco da liberdade

Que generosamente conquisto
Devagar.

Contemplo a magia das flores
Em que água, vento e sol se
Transformam
E no verbo liberto o que sou

Sou parte de um todo que é beleza
E eternidade.
A minha morte é unicamente
Uma necessidade deste mundo.

A necessidade de tornar sempre
Mais belo o universo a que pertenço.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, abril 27, 2011

Esta noite sonhei com um vale
Verdejante, entre versos
E rimas que se subtraiam
Á poesia encoberta do olhar.
Nos penhascos das palavras,
A coberto da confusão
Dos conceitos, encontrei
Um nome. Um nome único
Como são todos os nomes
Porque os nomes, nomeiam
Pessoas e todas são únicas.
Era o nome “Amigo” e todas
As suas letras estavam bordadas
A ouro e era delas que a luz surgia
Para iluminar o meu vale de sonhos.

Manuel F. C. Almeida

foto: http://olhares.aeiou.pt/ddiarte